Quem anda pelas ruas de Porto Alegre percebe que nos últimos anos a cidade começou a ficar um pouco mais colorida.
Grafites e murais se misturam à paisagem, oferecendo um respiro em meio ao crescimento acelerado da construção civil. Algumas dessas intervenções de arte urbana se destacam por suas escalas gigantescas. É o caso das obras da série Personagens produzidas desde 2022 para a Virada Sustentável, em homenagem ao ambientalista José Lutzenberger, à ginasta Daiane dos Santos e, mais recentemente, ao cantor e compositor Lupicínio Rodrigues. Além do tamanho — as duas primeiras ultrapassam os 50 metros de altura —, as pinturas têm outro ponto em comum: a assinatura de Kelvin Koubik.
Suas criações estão em toda parte, do Sarandi à Restinga. E não se restringem a prédios da capital gaúcha. Em setembro, o artista viajou até a Grécia, onde, a convite da embaixada brasileira, fez um mural em Nea Ionia, nos arredores de Atenas. Intitulada Kronos, a obra é inspirada na palavra grega “Chronos” (tempo), em combinação a “Kosmos” (universo). Na imagem, uma senhora aparece de mãos dadas com um menino — uma referência à Antiguidade da nação europeia, berço da civilização ocidental, e sua conexão com o “jovem” Brasil. Uma goiabeira e uma oliveira, árvores presentes na biodiversidade dos dois países, complementam o trabalho, que tem 6,5 metros de altura por 15 de largura. Antes disso, já havia deixado sua marca em países como Catar, França e Uruguai.
“A rua é uma grande plataforma pública. E isso é algo que me interessa: ver a arte com outro olhar, questionar para quem ela é feita, e por que”, reflete Kelvin. Esse olhar se traduz em sua atuação como muralista contextual — ou seja, alguém que busca compreender as dinâmicas socioculturais dos espaços que pinta.

Vivências artísticas
Nos trabalhos de Kelvin, a arte contemporânea dialoga com a pintura tradicional. Essa combinação é fruto de uma série de vivências culturais, iniciadas na virada do século, quando ele ainda era um adolescente no bairro São João, na Zona Norte de Porto Alegre.
A relação com o desenho vem desde criança, mas recebeu um inusitado estímulo familiar. “Como eu era um aluno muito conversador, hiperativo, minha mãe – que é professora – sempre mandava eu desenhar para não ficar ‘xaropeando’ durante as aulas”, rememora.
Aos 13 anos, junto com amigos, iniciou-se no grafite. Os primeiros riscos seguiam o chamado wild style, um estilo difícil de dominar e típico das ruas, com letras entrelaçadas em 3D. Estudante de escola pública, Kelvin ingressou na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) por meio de cotas sociais.
No curso de Artes Visuais, teve contato com diversos tipos de expressões artísticas. “Entrei aberto a experimentar o universo dos professores, entender o que eles tinham para me ensinar. Foi um momento super importante, porque até então minhas únicas referências eram da rua”, afirma.
Um novo mundo se abriu para Kelvin, que começou a frequentar galerias e museus. Durante o curso, conheceu a artista plástica e professora Teresa Poester, a quem considera uma mestra. “Ainda menino, com 12, 13 anos, Kelvin ajudava o pai como pedreiro. Também foi grafiteiro, percussionista, atleta de salto com vara. Isso tudo deu a ele repertório e colaborou para o instrumento de trabalho dele, que são o corpo e a mente”, explica Poester.
Com ela e Caju Galon, Kelvin criou o Atelier D43, coletivo que investiga as possibilidades do desenho face às tecnologias e linguagens contemporâneas. Esse trabalho rendeu, entre outros reconhecimentos, o Prêmio Açorianos — Destaque Exposição Coletiva de 2013 e uma residência artística na França.
A rua chama
A reconexão com as ruas veio em 2016, quando Kelvin recebeu, junto com outros artistas, o convite para pintar o muro que separa o cais da avenida Mauá, na capital. Em sua obra, ele traz elementos que remetem à região portuária da cidade, como uma embarcação, a Usina do Gasômetro e uma garça.
“Naquele momento, eu já tinha um pouco mais de bagagem intelectual, por causa da universidade, que me fez entender melhor as coisas. Desde então, sempre busco trazer essa questão do contexto no meu trabalho”, ressalta.
Ao tomar um novo rumo na carreira, o artista abandona o spray e passa a usar materiais mais convencionais, como pincel e tinta acrílica. Não que isso tenha tornado seu trabalho mais fácil. Afinal, estamos falando de murais gigantescos, que exigem inclusive preparo físico para subir em um balancim (um tipo de andaime suspenso), curso de trabalho em altura e o uso de equipamentos de segurança.
Kelvin conta que alguns aspectos devem ser considerados na execução de um mural de grande escala. O principal é o planejamento. “Em uma tela ou muro pequeno, do qual tu consegues te afastar, podes ter uma perspectiva da obra quando quiseres. Nesses murais, não tem como ficar descendo a toda hora”, observa. Também é preciso saber delegar funções, já que, em muitos casos, a tarefa exige uma equipe.
“Ao fazer o mural, tenho que definir quais cores vou usar, os balancins, o que cada um vai fazer. A pessoa vai com a cor 1 e pinta a parte 1, por exemplo. É um trabalho cheio de códigos, muito planejado.” Kelvin explora tecnologias como o uso de projetor e alia ferramentas digitais ao processo criativo, tralhando com iPad, Photoshop, testando camadas, recortes e outros formatos.
Influência mexicana
Ao contrário do grafite, bastante popular no Brasil, o muralismo é uma forma de expressão relativamente recente por aqui. Por isso, o artista diz ter mais referências externas. “Minha geração [Kelvin tem 35 anos de idade] não cresceu com murais verticais. Víamos muito trabalho de stencil, mas eram coisas de três metros de altura. Quando surgiram esses murais lá fora, começou a crescer em mim uma vontade de fazer isso”, justifica.
Ele se diz bastante influenciado por “Los Tres Grandes” muralistas do México: Diego Rivera (1886-1957), José Clemente Orozco (1883-1949) e David Alfaro Siqueiros (1896-1974). “Na verdade, essa é uma arte que existe desde o Renascimento. Só que o cliente era a Igreja Católica. O muralismo mexicano surgiu com a proposta de questionar a arte elitista e contar histórias de forma pública, que é o que me interessa. O mural está na rua e cada um lê como quiser”, acredita.
O primeiro trabalho nesse estilo veio em 2017, após Kelvin ser contemplado por um edital, em Caxias do Sul. Ele desenhou um vaso gigante brotando de um prédio para retratar o impacto do crescimento urbano sobre a natureza. Tinha “apenas” 12 metros de altura. Dois anos depois, veio um novo projeto, com praticamente o dobro do tamanho, que inaugurou a galeria a céu aberto da PUCRS.
Cultura e música popular
Mas nem tudo é questão de tamanho. Questionado sobre seus trabalhos mais importantes, Kelvin cita os murais em homenagem a Daiane dos Santos, Lutzenberger e Lupicínio Rodrigues. E também um mais modesto, no interior do Pará. “É uma ‘paredinha’ de dois metros de altura por seis de largura. Só que, para mim, foi muito significativo, pela vivência que me proporcionou”, diz. A obra é fruto de uma residência artística na comunidade ribeirinha de Urucureá, às margens do rio Arapiuns, junto a trançadeiras que fazem artesanato com palha de tucumã. O artista passou alguns dias no local e pintou a trançadeira viva mais antiga do povoado.
“Tenho muito interesse em cultura popular. Aspectos como território, memória e natureza sempre estão presentes na minha obra. Em cada trabalho, ao conviver com a biodiversidade e valorizar a produção local, sempre aprendo um pouco mais”, diz. À cultura das ruas e ao conhecimento adquirido na universidade e nos museus, Kelvin acrescenta outros fatores que impactam seu trabalho. Um deles é a paixão pela música, particularmente a MPB. Tanto que atuou durante dez anos como percussionista profissional — e essa não foi uma opção na UFRGS por detalhe. “Não tinha música popular, só clássica. Até por isso optei por Artes Visuais.”
Dependendo da situação, consegue unir a música a outro hobby: a leitura. Foi o que aconteceu durante o processo de pesquisa para criar a homenagem a Lupicínio que hoje estampa o prédio do Foro Central de Porto Alegre – Prédio II. “Gosto de me aprofundar nos temas que vou trabalhar. Ao saber que ia fazer o mural, decidi ler os livros do Arthur de Faria e do Marcello Campos”, diz ele, referindo-se a Lupicínio: Uma Biografia Musical e Almanaque do Lupi. Segundo Teresa Poester, essa dedicação para entender o personagem a ser retratato, bem como sua influência e seu contexto local e cultural, são fatores que fazem de Kelvin um muralista contextual. “É tudo feito de maneira muito pensada e planejada”, diz ela.
Sonho de moleque
Em abril de 2024, Kelvin esvaziou o ateliê que mantinha havia uma década no Vila Flores, centro de cultura, educação e negócios criativos localizado no bairro Floresta. “Tive a sorte de sair poucos dias antes da enchente”, lembra. A decisão de deixar o espaço se deu por questões práticas. Nos últimos dois anos, o artista não produzia nada no ateliê, apenas o utilizava como depósito. Agora, vive em São Paulo, onde, por conta das viagens, a situação não é lá muito diferente. “Os pincéis estão sempre na mochila. Mas viver aqui ajuda na logística de deslocamento para outros lugares. Além disso, minha companheira é de Minas Gerais. Então, é mais uma questão de facilitar a vida e o relacionamento”, argumenta.
Para o futuro, Kelvin deseja continuar espalhando sua arte em paredes e empenas mundo afora. Entre os destinos “de sonho” estão o México, para ver de perto as obras dos muralistas que o influenciaram, e o Japão, por sua cultura única e milenar. Planos hoje totalmente viáveis, embora sequer tivessem passado pela cabeça daquele menino do bairro São João. “Sinceramente, não pensava muito no futuro. Estava sempre estudando, buscando me aperfeiçoar. Agora, já posso dizer que realizei meu sonho de moleque, que era viver disso. Mas ainda tem muitos lugares onde quero pintar.”