“Qual criança você prefere que morra? Escolha, e eu desligo o aparelho”.
Fernando Lucchese chegara estressado ao restaurante onde jantaria com a esposa, Josiane Castro, e os casais Cláudio e Helena Bartelle e Nora Teixeira e Alexandre Grendene. Em meio ao jantar, assolado por uma dor de cabeça, o diretor médico do Hospital da Criança Santo Antônio ainda reverberava a angústia da frase dita durante o embate daquela tarde. Um oficial de justiça, de mandado em punho, exigira a internação de uma criança em estado grave na UTI. Mas não havia leitos disponíveis. Cumprir a lei representava colocar em xeque a vida de outro ser humano. Uma escolha de Sofia que nem Lucchese, nem o oficial, nem ninguém teria condições de fazer. O episódio escancarava o esgotamento das capacidades da estrutura, que integra o complexo da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
Era preciso mudar o cenário com urgência — ou calamidades como aquela não parariam de se repetir. A única saída seria ampliar a UTI infantil, multiplicar o número de vagas. Uma demanda dispendiosa, cujo pedido de recursos dificilmente encontraria acolhida no poder público. Em face de um quadro como esse, qual caminho poderia ser tomado? A solução foi prontamente indicada por Nora: “Vamos fazer uma festa”.
Existe um tipo de influência que não se mede por exposição. Ela não depende de discursos inflamados, presença massiva nas redes sociais ou circulação permanente nos holofotes. Atua de forma discreta, estratégica e sutil, mas produz efeitos concretos, profundos, duradouros e extremamente positivos. No Rio Grande do Sul, poucas figuras representam tão bem essa ideia quanto a empresária Nora Livonius Teixeira – talvez o maior expoente do trabalho filantrópico no estado.
À frente da Casa NTX, um dos mais renomados e luxuosos espaços de eventos da capital gaúcha, Nora tem se notabilizado por sua liderança em movimentos de apoio à Santa Casa. O fruto mais destacado desse esforço surgiu em outubro de 2023, com a inauguração de um hospital que leva o seu nome. Erguido em 15 andares, o Nora Teixeira é a unidade mais moderna do complexo. São 220 leitos, dedicados a emergência SUS, oncologia e maternidade. A obra exigiu um investimento de R$ 284 milhões. Quase 90% desse montante foi captado por meio de campanhas de doação que tiveram Nora como embaixadora. “O hospital é como um filho. Um sonho realizado.”

Uma questão de DNA
Ajudar pessoas e celebrar a vida são elementos intrínsecos ao DNA de Nora Teixeira. Características herdadas da família. A avó materna, Alba, era voluntária em entidades assistenciais – em especial, o Educandário São João Batista, na zona sul de Porto Alegre. E fez despertar em Nora o gosto por ajudar. “Conheci o Educandário quando tinha 17 anos. Fiquei encantada com aquele trabalho. Passei a ir uma vez por semana para brincar com as crianças”, lembra. Às quartas-feiras, entretanto, a preocupação de Alba era outra: preparar a casa para tomar chá e jogar baralho com as amigas.
A residência dos Teixeira, aliás, sempre foi um epicentro de eventos sociais. “Meus pais adoravam receber. Tínhamos uma casa em Torres, e meu pai fazia churrascos para todos os nossos amigos. Cada uma levava o seu grupo”, recorda Nora, referindo-se às irmãs, Bettina, Aline e Carolina. Esse traço se tornou tão marcante que acabou definindo os seus rumos profissionais.
Formada em Direito pela PUCRS, ela chegou a atuar na profissão por quase três anos. Em paralelo, organizava festas ao lado da mãe, Maria Celeste, e de Bettina. Juntas, montaram um negócio de eventos – o embrião do que viria a ser a NB Eventos, hoje comandada pela irmã mais velha. O empreendimento cresceu tanto que levou Nora a abandonar a advocacia. E essa trajetória ganhou um impulso decisivo a partir de um convite especial – considerado um divisor de águas não apenas na carreira, mas em sua vida.
Acometido por um problema cardíaco, Pedro Henrique, pai de Nora, faleceu repentinamente aos 42 anos. Sem ele, a casa de Torres perdeu o brilho. E a família, aos poucos, deixou de usá-la. Alexandre Grendene Bartelle, um dos fundadores da indústria de calçados Grendene, passou a alugar o imóvel até adquiri-lo em definitivo algum tempo depois. Ali, ele iniciou uma relação de proximidade com Maria Celeste e as filhas. Em 1992, Nora e Bettina foram convidadas para sua festa de réveillon em Punta Del Este, no Uruguai. Ao crivo das duas experts, o evento deixou a desejar. Tanto que, no ano seguinte, Alexandre repassou a elas a incumbência de organizar a comemoração.
Dali em diante, os réveillons de Alexandre tomaram uma proporção quase mítica. “A previsão do primeiro era de recebermos 500 pessoas. Chegamos a 800”, conta Nora. Seguiram-se mais quatro viradas de ano na praia uruguaia, com shows de artistas como Fernanda Abreu, Lulu Santos e Daniela Mercury. O último, em 1997, reuniu 3.250 convidados. Foi quando Alexandre decidiu abrir mão das festas, que haviam se distanciado muito de qualquer conceito intimista. Já a ligação com Nora ganharia outros contornos cinco meses depois. Em 2026, o casal completou 29 anos de relacionamento: “É o meu grande parceiro de vida”. Alexandre, aliás, se tornou uma peça vital nos projetos assistenciais que Nora passou a se envolver.
Empatia a cada brinde
Cerca de R$ 3,5 milhões. Era esse o orçamento necessário para as reformas do Hospital da Criança Santo Antônio. Uma verba e tanto. Mas que não assustou Nora. A ideia da festa foi prontamente aceita por Josi e Helena. Junto com Fernando Lucchese, os quatro passaram a acionar seus contatos e a amealhar reforços de peso entre esposas de empresários e nomes importantes da sociedade gaúcha. Assim nascia o Voluntárias pela Vida, grupo liderado por Nora para atuar na arrecadação de donativos em prol da Santa Casa.
Em novembro de 2014, semanas após a situação vivida pelo doutor Lucchese, o Voluntárias organizou o seu primeiro Baile de Gala Beneficente – incluindo uma grande festa e um leilão. A iniciativa foi um sucesso absoluto, com arrecadação de R$ 4,2 milhões, acima da meta inicial. E não parou por aí. Entre outros projetos, o grupo levantou R$ 6,2 milhões para a reestruturação do Hospital São José, concluída em 2018, além de donativos para a Casa de Apoio Madre Ana – idealizada por Lucchese e financiada por meio de feijoadas e outras ações do grupo. O palco dos eventos que catalisaram a arrecadação de recursos sempre foi o mesmo: a Casa NTX.

Criada em 2012, a NTX nasceu de um anseio antigo de Nora e Bettina, que nem sempre encontravam a melhor estrutura para os eventos nos clubes e espaços da cidade. “A gente passava tanto perrengue para montar as festas, tinha que adaptar tudo”, lembra. “E ficávamos sem graça com as pessoas contratadas, porque todo mundo trabalhava numa condição muito ruim.” Por isso, a NTX foi pensada tanto para o convidado quanto para quem faz a festa acontecer.
O projeto, assinado pelo arquiteto paulistano Felipe Crescenti, é uma extensão de Nora: belo e requintado, sem jamais se descuidar do fator humano. Mármore Carrara, lustres de Murano e cadeiras Philippe Starck convivem com um espaço projetado para também acolher quem serve. Há vestiários próprios dedicados aos garçons, cozinha industrial reservada ao time e sala para manobristas. “Queríamos que aqui todo mundo ficasse feliz. Tudo começa pelas pessoas”, resume. E foi desse cuidado com um colaborador que o Hospital Nora Teixeira começou a surgir.
A arte de pedir
Quando decidiu ligar para Nora, em desespero, Gilson já completava 12 horas de espera por atendimento na emergência da Santa Casa. Ardia em 40 graus de febre. “A senhora é a única pessoa que pode me ajudar”, suplicou. Nora entrou em contato com o hospital e pediu que seu funcionário fosse encaminhado ao atendimento particular. Ela arcaria com os custos. “Aquilo me fez pensar em quantas pessoas não têm a quem recorrer em momentos assim”, diz. Ao visitar o local, encontrou um cenário caótico e aterrador, com leitos superlotados. O diretor da emergência a pegou pelo braço e implorou: “Olha só como é o nosso estado, a gente não tem condições de trabalhar”. Nora saiu de lá chorando, decidida a erguer uma nova emergência para a Santa Casa.
O problema é que não havia como expandir a estrutura. A única saída seria construir um hospital do zero. E o complexo já tinha uma área reservada para isso. “Então, vamos fazer”, emendou Nora – para logo em seguida gelar ao ouvir o custo da empreitada. Só para assentar as fundações do prédio e viabilizar o andar térreo eram necessários R$ 40 milhões. Dinheiro demais, até mesmo para o bom coração e para a agenda de contatos das Voluntárias pela Vida. “Elas acharam a quantia muito alta. Eu disse que iria fazer sozinha, então”. Ali começava a mais ousada campanha de filantropia da história do Rio Grande do Sul.
O primeiro passo foi dado dentro de casa. Alexandre, que sempre apoiara em projetos menores, estava receoso – não só pelos valores, mas em razão do envolvimento necessário. Aos poucos, porém, a mente do empresário começou a enxergar as oportunidades do projeto. A nova área não poderia ser restrita ao SUS – um serviço deficitário para a Santa Casa. Era preciso que o hospital contasse, também, com convênios e atendimentos privados. O modelo híbrido geraria receita, ajudando a entidade a custear os serviços gratuitos e a melhorar o restante da operação. Assim, ele comprou a ideia: os primeiros R$ 40 milhões estavam garantidos. Um cheque que se tornaria o alicerce simbólico e financeiro de tudo que viria a seguir. “Há um diferencial em pedir auxílio quando a primeira doação do projeto já partiu de você”, analisa Nora.

A elegância e a inteligência de Nora transparecem em sua estratégia para cooptar uma eventual doação. O método é uma mescla de delicadeza e pragmatismo. “Nunca vou direto no empresário. Procuro, primeiro, apresentar a ideia para a esposa”, revela. A sensibilidade feminina tende a ser um trunfo. Nora também evita abordar alguém que não esteja disposto a se engajar naquele momento. “Quero que a pessoa ajude de coração, porque estou fazendo o bem a ela também. A doação é um alimento para a alma”. Ela chama isso de “a arte de pedir”. E foi com essa destreza, batendo de porta em porta, que Nora, Lucchese, a diretoria e médicos da Santa Casa convenceram nove famílias gaúchas a destinarem, juntas, mais de R$ 230 milhões – valores que, somados a recursos públicos, viabilizaram o Nora Teixeira.
A força do exemplo
Ao longo de três anos e meio, em plena pandemia, Nora acompanhou cada etapa do projeto. Cobrava o cronograma junto à construtora, recebia fotos, participava em todas as frentes. A transparência da Santa Casa foi um ponto fundamental. Cada projeto tinha conta própria, com extratos a que ela tinha acesso. “Eles sempre nos deram carta branca para cuidar desse dinheiro.” A direção da entidade, entretanto, fez uma exigência irremovível: o nome do hospital já estava escolhido. “Eu não queria aceitar, de forma alguma”, sorri Nora, quase constrangida. “Minha ideia era vender o nome a um empresário para ajudar na arrecadação”.
Ainda que não esconda a alegria pela homenagem, Nora evita, a todo custo, o protagonismo solitário. Quando alguém a parabeniza, corrige de imediato. “É parabéns para todas as famílias que ajudaram. O hospital é o resultado da força de várias pessoas que se uniram em torno do bem.” Esse incômodo com os holofotes não é afetação. Em tempos de superexposição, Nora parece seguir uma lógica oposta. Em parte, confessa, é pela timidez. Com sinceridade, relata o pavor que sentiu ao ser convidada para contar sua experiência para 500 pessoas, em um evento de Santas Casas no interior de São Paulo. “Meu Deus, eles vieram me ouvir? Fiquei com muita vergonha.” Nora preparou um texto, pediu para ler, começou trêmula. Em poucos minutos, já não precisava mais recorrer à folha. “Me entusiasmei e comecei a falar.” Saiu sem passar metade dos slides que havia preparado. Foi aplaudida por todos.
A sintonia fina entre reserva e missão sempre foi um desafio para Nora Teixeira. Por anos, ela relutou em divulgar os valores doados. Sentia que era exibicionismo. “Mas a Santa Casa me ensinou a divulgar, exatamente para estimular outras pessoas”. Hoje, fala abertamente das cifras – e já viu o efeito cascata acontecer dezenas de vezes. É o que ela chama de rede do bem.
Um novo horizonte

A rotina de Nora é corrida. Além dos eventos e campanhas, ela se dedica à maior paixão: a família. São duas filhas do primeiro casamento. A mais velha, Júlia, tem 35 anos e é mãe de dois meninos. Já Vitória, de 31 anos, ainda não tem filhos e mora em São Paulo. Por isso, Nora se divide entre Porto Alegre e a capital paulista. Também costuma passar temporadas longas na Europa, a bordo do Madame Kate – um superiate comprado por Alexandre em 2015. De Alexandre, aliás, Nora ganhou sete netos do coração. “Eles me chamam de vovó Norinha. Amo de paixão”, derrete-se. “Meu maior hobby é estar com os amigos e a família.”
Aos 59 anos, com a energia de quem encontrou seu propósito, Nora está lançada em mais um desafio: o projeto de um novo hospital para a Santa Casa. As conversas já começaram. O modelo será o mesmo que deu certo: uma emergência SUS financiada pela operação de andares de convênio e particular. Desta vez, com a experiência de quem já tem um case de sucesso para mostrar. Para se ter uma ideia, o Hospital Nora Teixeira tem gerado mais de R$ 50 milhões por ano para a Santa Casa. Ou seja, seu legado econômico é tão importante quanto o assistencial. Antes, em 2027, será entregue a remodelação do Dom Vicente Scherer, anunciada na inauguração do Nora Teixeira. O projeto recebeu aporte inicial de R$ 36 milhões, cedidos por Nora e Alexandre, seguido por R$ 22 milhões do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e R$ 10 milhões da família Logemann.
O aspecto mais singular de Nora Teixeira, entretanto, talvez esteja naquilo que ela não tenta construir: um personagem público. Em um ambiente marcado por vaidade e exposição, sua trajetória segue a lógica da permanência. O Hospital Nora Teixeira continuará existindo daqui a décadas. Milhares de pessoas passarão por seus corredores sem necessariamente saberem da mulher que usou o seu poder de influência em nome do bem comum. E talvez isso faça pouca diferença para ela. Porque existe um tipo de legado que dispensa o reconhecimento imediato. Ele depende apenas de continuar produzindo impacto.
Em um mundo que aplaude o barulho, Nora Teixeira prefere o eco. É esse eco que reverbera de modo positivo em diferentes direções: no bem-estar de um colaborador que se sente valorizado, na mão que uma auxiliar de enfermagem que estende a uma senhora no SUS, no alívio de um pai que encontra um leito para o filho. Tudo começa pelas pessoas, ela costuma dizer. E, nos caminhos que engendram a sua arquitetura do bem, tudo encontra nelas a sua finalidade.