Era meio de tarde no Bom Fim, tradicional bairro de Porto Alegre, quando um grupo de jovens chegou à área externa do Espaço Brasco. Arredaram algumas cadeiras, juntaram duas mesas e sobre elas dispuseram uma maquete. Em seguida, esses estudantes de Arquitetura da UFRGS passaram a discutir e a fazer mudanças no projeto. Tudo regado a cafés e lanchinhos. E à medida que a noite se aproximava, mais pessoas ocupavam o Espaço Brasco, dando início a um animado happy hour.
Comandado pelos sócios Gabriel Drumond, 32 anos, e Arthur Bolacell, 33, o Mercado Brasco se propõe a ser uma extensão da casa de cada cliente. Ou melhor, a sala de estar do bairro todo. A ideia é oferecer, na Capital, o clima dos armazéns, bolichos e bodegas típicos de interior. Isto é, um ponto de encontro, uma referência na vizinhança. Mas, para alcançar esse objetivo, os jovens empresários tiveram que ir além do conceito de mercado tradicional.
O negócio que contava com padaria, café e mercearia foi evoluindo aos poucos. Passou a incluir bar, restaurante, coworking, conveniência. E muito mais. Dependendo da unidade, alguns segmentos são priorizados. O cardápio também muda, conforme a localização. Hoje, são cinco unidades, todas em Porto Alegre. Cada loja é hipercustomizada, embora carreguem em comum a essência da marca.
Cultivando a Capital
Tudo começou na década passada, pouco depois de os fundadores saírem do interior para fazer faculdade em Porto Alegre. Drumond partiu de Uruguaiana, na fronteira com a Argentina. Bolacell, de São Luiz Gonzaga, nas Missões. Eles se conheceram no curso de Administração da ESPM. Com “sangue varejista” correndo nas veias – a mãe de Drumond é dona de uma loja de brinquedos, enquanto os pais de Bolacell trabalham com vestuário –, os dois sabiam desde o princípio que queriam empreender. Ao lado de outro colega, Honório Chaves Dias, montaram o MVP (Minimum Viable Product, um protótipo) de um mercadinho para uma disciplina da faculdade. Ainda que os três fossem meros estudantes, recém-chegando aos seus 20 anos de idade, resolveram apostar no negócio.
Depois de um intercâmbio na Europa em busca de benchmarks, o trio se lançou ao trabalho. Inspirados pela rede britânica Tesco, desenharam o conceito do Brasco, cujo nome não guarda nenhuma história especial. “Eu só pedi a uma agência que criasse um nome curto, que pudesse ser falado em outras línguas e não tivesse complementos, a exemplo do Tesco”, conta Drumond, à Business Talks. O investimento inicial saiu das próprias economias, de empréstimos de familiares e de um aporte de Gildo Sibemberg, então professor na ESPM. Depois de dois anos, Chaves saiu da sociedade para se dedicar aos negócios da família, em Bagé. Já Sibemberg, o professor, permaneceu até 2015.
Hoje, os sócios-fundadores comandam o Brasco de maneira igualitária. Enquanto Drumond está à frente do planejamento e da formação das equipes, Bolacell se dedica, em especial, ao marketing e comercial.
O primeiro Mercado Brasco foi inaugurado em dezembro de 2012 na Florêncio Ygartua, tradicional rua do Moinhos de Vento. No coração de um bairro que valoriza a vida a pé, a loja foi perfeita para testar o modelo. No espaço, nada de prateleiras atulhadas, nem de corredores apertados ou luzes artificiais, comuns às grandes redes. As gôndolas e estantes foram (e são) organizadas de modo a valorizar as mercadorias. Aliás, no Brasco vende-se de tudo um pouco: flores, frutas, hortaliças, chás, cafés, vinhos, pães, doces, salgados, com o diferencial de a maioria ser proveniente de produtores locais – que representam mais de 60% do faturamento. O ambiente é limpo e arejado. Já a luz amarela oferece um clima acolhedor.
Além do mercado e do parklet, que convida a um café ao ar livre ou a uma cerveja após o expediente, a unidade da Florêncio impulsionou outra vocação do Mercado Brasco: a organização de eventos de rua. Foram vários ao longo dos anos, incluindo quermesses, feirinhas veganas, oficinas de receitas para crianças e comemorações da chamada St. Patrick´s Day. Essas iniciativas tornaram a marca uma referência para o bairro, pavimentando o caminho para a expansão. A segunda loja foi aberta em 2015 no Viva Open Mall, na zona norte, próxima do Shopping Iguatemi.
A terceira fica num prédio de tijolos aparentes, inaugurada em meio à pandemia, em 2020. O Espaço Brasco está na esquina das ruas Vasco da Gama e Fernandes Vieira, conhecida e lembrada pela histórica locadora Espaço Vídeo. Além do mercado e da padaria, conta com um coworking. Parte do salão é compartilhada com a operação de outras marcas de gastronomia, como Doralice, Oak’s Burritos, Charlie Brownie e Freddo – ao estilo food hall.
“Os guris ajudaram a iluminar o Bom Fim. O Brasco rejuvenesceu e revitalizou o bairro”, afirma Berenice Curtis Mércio Pereira, professora aposentada e cliente fiel. Após a chegada da rede, outros negócios ganharam tração no bairro, como a charmosa Alameda Bom Fim, um complexo gastronômico a apenas 250 metros dali.
Já o Café Brasco abriu em 2021 no Instituto Caldeira, maior hub de tecnologia e inovação do Rio Grande do Sul. O local, contudo, foi um dos 7,2 mil negócios diretamente atingidos pela enchente de maio de 2024. Estoque, equipamentos, mobiliário: tudo foi perdido pela água, que chegou a quase 2 metros de altura e causou um prejuízo estimado em R$ 400 mil. “Quando a gente entrou pela primeira vez e viu os estragos de perto, a vontade era de sair e nunca mais voltar”, relembra Drumond. Mas desistir não era uma opção. “Nunca fechamos uma loja. Então, quando confirmaram que o Caldeira iria voltar, também confirmamos o nosso retorno.” O café foi reaberto quase cinco meses depois da tragédia, em setembro.
O lançamento da quinta unidade aconteceu em 2023, em outra esquina icônica da Capital: na rua Padre Chagas com a Luciana de Abreu. Tornou-se a segunda operação da marca no Moinhos de Vento. O ponto de encontro segue a lógica de misturar diferentes segmentos num mesmo espaço – mercado, padaria, coworking. Fica a critério do cliente o melhor horário, já que a loja abre quase o dia todo.
A força do branding
Em outubro de 2024, o Mercado Brasco venceu o Top de Marketing na categoria Branding. Promovido há mais de 40 anos pela Associação dos Dirigentes de Marketing e Vendas do Brasil (ADVB/RS), o prêmio é a maior referência do setor no Rio Grande do Sul. A conquista é fruto das várias realizações dos últimos anos.
O e-commerce está entre elas. O serviço de delivery oferece mais de 1,8 mil produtos, incluindo itens de hortifruti, padaria e adega. Já o programa de fidelidade Brasco+, que funciona por meio de um app, concede benefícios como cashback, descontos e até mesmo um café cortesia mensal.
Outro diferencial está nas parcerias com outras marcas gaúchas para o lançamento de produtos. É o caso da Alcapone, com quem desenvolveu a Gira, segunda cerveja mais vendida da casa, perdendo apenas para a Heineken. Já com a Magian Cacao, de Porto Alegre, o Brasco lançou a barra de chocolate Choco. E com a vinícola Luiz Argenta, de Flores da Cunha, criou o Portinho, vinho mais vendido na rede. Sem falar nas lasanhas e nas sopas congeladas, queridinhas da clientela.
As parcerias nascem da vontade de entregar itens exclusivos ao consumidor. “O Brasco não tem uma competição por preço porque oferece várias vantagens competitivas, como curadoria, apelo à boa experiência e uma forte cultura de proximidade com os clientes”, explica Fabiano Zortéa, especialista em varejo e consumo do Sebrae.
Pequenos mercados, como o Brasco, respondem por cerca de 45% do faturamento do setor,
segundo a Associação Gaúcha de Supermercados (Agas). Embora não divulgue a receita, o Brasco cresceu 84% em 2021 sobre 2020 – ano em que a economia como um todo foi abalada pela pandemia. Em 2022, o faturamento foi 37% maior. No ano seguinte, 10%. Os números de 2024 ainda não estavam fechados até a conclusão desta reportagem, mas a projeção era de 15% de expansão.
Tamanho sucesso tem feito a marca ser assediada por várias frentes: shoppings, fundos de venture capital, especialistas em franquias. Mas os sócios garantem que a ideia não é crescer por nenhum desses caminhos. “Queremos abrir mais lojas, mas sem investimento externo. Nossa ideia é crescer de maneira orgânica, numa velocidade que permita manter a qualidade”, avalia Drumond.
Uma das dores mais evidentes do crescimento é garantir um time com a “vibe” do Brasco. São quase 100 funcionários atualmente, todos treinados para oferecer um atendimento informal e descontraído, mas que de modo algum abre mão do respeito e do cuidado.
“Não dá para dobrar o número de colaboradores em dois meses e garantir o atendimento diferenciado”, diz Drumond. Foi com essa mentalidade que ele e Bolacell transformaram o Brasco numa das marcas mais queridas de Porto Alegre, não só para as compras rápidas do dia, mas para trabalhar, estudar, almoçar ou apenas encontrar os amigos.