Drones de última geração prontos para a ação e pessoas lidando com complexos softwares de monitoramento agrícola. Quem observa a sofisticação da unidade da Arpac em Jaú, a cerca de 3h de São Paulo, não imagina que a startup nasceu de um drama pessoal vivido por seu fundador. Era 2008 quando Eduardo Goerl, então instrutor de voo, se viu em meio a uma tragédia: a aeronave com a qual ensinava um aluno pegou fogo durante uma decolagem e caiu sobre uma fazenda em Bagé, na Campanha Gaúcha.
Os dois sobreviveram, mas o episódio despertou em Goerl o fascínio em encontrar uma forma de reduzir os acidentes na aviação agrícola – uma atividade perigosa, já que os rasantes para pulverização por vezes esbarram em linhas elétricas mal sinalizadas, cercas ou morros.
A solução começou a ser desenhada anos depois. Mais precisamente em 2014, quando Goerl criou a Arpac para adaptar drones à atividade rural. Na época, esses equipamentos começavam a virar febre em áreas como a militar e a construção civil. Mas ninguém falava de drones no campo. A premissa era que, utilizando Veículos Aéreos Não Tripulados (Vant), os agricultores gastariam menos e teriam maior segurança para aplicar defensivos em áreas de difícil acesso.
No Japão, que estava um passo à frente do Brasil nesse quesito, a pulverização envolvia helicópteros não-tripulados, mais caros e menos precisos que os drones. “Não havia ninguém de quem pudéssemos comprar essa tecnologia, e também não tínhamos sede e nem linha de montagem. Para o primeiro protótipo, o jeito foi pegar drones genéricos e fazer as adaptações na sala do meu apartamento”, relembra Goerl.
Com três metros de diâmetro e capacidade para dez litros de produto, os primeiros drones da Arpac começaram a voar comercialmente em 2017. A inovação logo atraiu a atenção de duas gigantes, Yamaha e BASF, que investiram no negócio.
Em 2020, a startup assinou um acordo para fazer a pulverização dos canaviais da Raízen. Pouco depois, juntaram-se ao portfólio nomes como Petrobras e Amaggi. Capitalizada, a Arpac apostou ainda mais em tecnologia, desenvolvendo uma inteligência artificial (IA) capaz de identificar ervas daninhas escondidas na plantação.
“Quando começamos, os drones eram a tecnologia-fim. Agora, tornaram-se um hardware, onde são incorporadas ferramentas digitais. Investir e aprimorar estas tecnologias passou a ser nosso grande diferencial”, explica o empresário.
Atualmente, a Arpac conta com 50 colaboradores e opera uma das maiores frotas nacionais de drones para o agronegócio, com 24 vants. O case bem-sucedido da Arpac ilustra apenas um entre inúmeros exemplos de startups que estabeleceram um divisor de águas no agronegócio do século 21.
Marcha disruptiva
Intituladas agritechs ou agtechs, essas empresas são grandes propulsoras da chamada Agricultura 4.0.
Assim como a indústria mundial atravessa sua quarta revolução, com maior automação e ferramentas digitais, a agricultura e a pecuária estão em plena marcha disruptiva. São tecnologias como sensoriamento remoto de solo e umidade, monitoramento climático por IA, máquinas e implementos com machine learning e Internet das Coisas (IoT) que aperfeiçoam o trabalho em tempo real. São, também, softwares que analisam bases gigantescas de dados para identificar a melhor semente, o volume ideal de fertilizante e a quantidade precisa de água na lavoura.
Ferramentas como estas nascem da pesquisa de inúmeras agritechs, são experimentadas e aprimoradas em indústrias tradicionais e finalmente levadas às lavouras. Em comum, oferecem mais controle, produtividade e rentabilidade ao produtor. “Um grão de soja hoje traz a tecnologia de um iPhone”, compara Luis Humberto Villwock, coordenador do Celeiro AgFood Hub, localizado no Tecnopuc, e professor da Escola de Negócios da PUCRS, em Porto Alegre.
Fonte mundial de alimentos, o Brasil vem se tornando referência também neste movimento revolucionário. A dimensão continental e a variedade de safras e microclimas – aliados às dezenas de parques tecnológicos, incubadoras e aceleradoras – favorecem o país na multiplicação de startups.
De acordo com o Radar Agtech Brasil 2023, estudo elaborado por Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens, o país tinha 1.953 agritechs naquele ano. O crescimento é superior a 14% sobre 2022. São Paulo era o estado com maior volume, com 845 negócios na área, enquanto o Rio Grande do Sul vinha em segundo lugar, com 194 empresas, seguido por Paraná (182) e Minas Gerais (169).
“O Brasil tem liderado a inovação no agro a partir de suas startups, com um grande volume de jovens e universidades propondo soluções tecnologias para o setor”, afirma Marco Fava Neves, professor da USP e FGV e fundador da Harven Agribusiness School. Não é por acaso que o país lidera os investimentos no setor na América Latina.
De acordo com o relatório Agtech Report 2023, da plataforma de inovação Distrito, desde 2017, as startups do agro brasileiras participaram de 261 rodadas de investimentos, movimentando US$ 491 milhões — 75% do total da região. Capitalizadas, testadas e capitaneadas por profissionais experientes, muitas têm fincado raízes em mercados maduros, como Europa e Estados Unidos.
Agritech tipo exportação
A DigiFarmz é uma agritech gaúcha que utiliza IA e algoritmos em base de dados para oferecer recomendações ultrapersonalizadas para controle de doenças em lavouras. Com quase 1,2 mil produtores utilizando sua tecnologia no Brasil e no Paraguai, cobrindo um total de 600 mil hectares, a startup nascida em Passo Fundo está prestes a fincar bandeira nos Estados Unidos.
Foi com essa meta que, em 2023, Alexandre Chequim, CEO e fundador, fez as malas e rumou para Illinois, nos Estados Unidos, de olho no potencial do chamado Cinturão do Milho (Corn Belt), que cobre estados como Ohio, Indiana e Michigan. A expectativa é fechar contratos que cubram 200 mil hectares em território americano. “A solução que desenvolvemos não tem concorrente nem nos Estados Unidos”, assegura Chequim. A empresa foi seduzida a ir aos EUA atrás de um perfil de produtor disposto a pagar por tecnologia de ponta – basta que haja ganho de tempo e maior margem nas colheitas.
O negócio surgiu em 2016, quando Chequim encontrou, por acaso, um antigo professor da graduação em Agronomia na sala de embarque do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre. Àquela altura, ele já havia criado nove startups e se considerava, compreensivelmente, um sujeito com faro empreendedor. Ricardo Balardin, o ex-professor, era um expert em estudos agrícolas, com PhD duplo na área pela Universidade de Michigan.
Ao longo de 12 anos, Balardin havia estudado e mapeado informações sobre clima, solo, genética e fertilizantes indicados para todas as regiões do Brasil, do Paraguai e do meio-oeste dos Estados Unidos. Daí para o lançamento da DigiFarmz foi um pulo. A ideia era criar modelos a partir deste enorme volume de informações para gerar recomendações ultrapersonalizadas de manejo de fungicidas.
Além de aprimorar um algoritmo para definir as melhores técnicas de cultivo para cada agricultor, a agritech trabalhou forte na conectividade. Seu software foi desenvolvido para se conectar a plataformas de grandes empresas, como SAP e Bayer, e ajudar a interpretar dados para gerar ainda mais eficiência no plantio. “Nosso trabalho é ampliar o poder de decisão do agricultor sobre como utilizar todas as tecnologias que têm em mãos em favor de safras ainda mais produtivas e rentáveis”, resume Chequim.
Sustentabilidade no foco
Outro avanço considerável trazido por soluções como a da DigiFarmz está na atenção às práticas de ESG, acrônimo em inglês para ambiental, social e governança. Mais inteligência no campo significa redução do volume de água na lavoura, queda no montante e na frequência das pulverizações e menor emissão de carbono – por reduzir a passada de máquinas.
Prova de que as agritechs estão atentas a este movimento está na constatação da Embrapa de que a sustentabilidade está entre os temas que mais pautaram o crescimento de 55% dessas startups em 2023. “As novas tecnologias e as ferramentas digitais mostram caminhos para que o produtor não use mais semente ou adubo do que o necessário. Há um ganho de produtividade e economia de recursos que está diretamente conectado à lógica da inovação”, explica Fábio Avancini Rodrigues, diretor vice-presidente da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul).
É apostando na conexão entre a sustentabilidade ambiental e financeira que a agritech Raks tem chamado a atenção dos produtores rurais. Instalada no Tecnosinos, em São Leopoldo (RS), a startup desenvolveu sensores que monitoram a umidade do solo e informam, no smartphone do agricultor, onde é necessário irrigar e em qual volume.
Ou seja, foi-se o tempo em que era preciso mergulhar as mãos ou o bico da bota na terra para supor onde colocar água. A tecnologia acumula premiações dentro e fora do Brasil, em razão da precisão das informações e da adaptabilidade aos diferentes perfis de solos.
“A solução trabalha 100% com sustentabilidade, e temos percebido como este vem sendo um ponto cada vez mais valorizado pelo produtor – desde que aliado ao ganho financeiro”, garante Fabiane Kuhn, CEO e fundadora da Raks. A startup atende 70 clientes em 12 estados brasileiros e está adaptando sua solução para começar a exportar para os Estados Unidos.
Para turbinar a inovação
A inovação aberta virou regra de ouro para acelerar a chegada de novas tecnologias no campo. Gigantes do agro e agritechs – muitas vezes conectadas por aceleradoras, universidades ou hubs – têm enxergado nas parcerias uma via de mão dupla para desenvolver soluções e levá-las com celeridade até o produtor.
Um estudo da PwC Agtech Innovation mostra que 76% das grandes empresas e cooperativas brasileiras já praticam a inovação aberta. E todas garantem que trabalham ou pretendem trabalhar ao lado de startups para impulsionar a pesquisa e o desenvolvimento de novos produtos e serviços.
De fato, quem está mais avançado nesta frente costuma colher ótimos frutos. A fabricante de máquinas e implementos agrícolas gaúcha Stara, com matriz em Não-Me-Toque, a 280 quilômetros de distância da Capital, mantém parcerias com ecossistemas de inovação e startups para incorporar tecnologia e ferramentas digitais aos seus produtos.
Com exportações para mais de 35 países, a indústria sabe que a inovação é a chave para manter suas máquinas indispensáveis nos mercados onde atua. Desta forma, investe quase 5% da receita em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), ante uma média nacional de 0,78%. “Enxergamos a Stara como uma grande startup, sempre aberta à inovação e em busca de tecnologia”, conta Cristiano Buss, diretor de P&D da Stara.
Atualmente, a empresa conta com mais de 80 parcerias com startups, universidades e companhias tradicionais para desenvolvimento tecnológico. Uma destas conexões é com a agritech Aegro, de Porto Alegre, que automatizou todo o abastecimento de informações levantadas pelas máquinas e implementos para atividade nas lavouras. Ou seja, o agricultor que utiliza o software da Aegro e as máquinas na Stara não precisa planilhar à mão dados como volume de produto aplicado por hectare e área trabalhada – o programa é atualizado automaticamente.
“Este tipo de parceria integra nossos equipamentos aos softwares e às plataformas mais buscadas pelo agricultor, impulsionando também nossa estratégia comercial”, detalha Buss.
Outra novidade desenvolvida pela Stara é fruto de uma parceria com as gigantes BASF e Bosch e tem ares de ficção-científica. Trata-se do Imperador 4000 Eco Spray, um pulverizador com 36 metros de largura, equipado com 37 câmeras de alta resolução e dezenas de sensores. A máquina, que deve chegar ao mercado ainda em 2025, é capaz de processar imagens em tempo real para definir onde aplicar o defensivo.
Assim, a pulverização é feita de maneira certeira, onde realmente é necessária. “É um scanner gigante, que tira 555 fotos por segundo, utiliza machine learning e IA para mapear a propriedade e gerar mais precisão no uso do defensivo”, afirma o porta-voz da Stara. Os primeiros testes, feitos em uma área de 7 mil hectares, revelaram uma economia de 150 mil litros da água utilizada na diluição dos defensivos, em razão da pontualidade da aplicação.
Se para as grandes empresas a inovação aberta representa uma vantagem estratégica sobre os concorrentes, para as agritechs, é uma forma insubstituível de testar suas soluções em larga escala e ampliar as receitas. A Elysios Agricultura Inteligente, de Porto Alegre, passou a crescer com mais vigor após receber um investimento e iniciar uma parceria com o Sicredi, em 2022, atendendo a algumas unidades da cooperativa no interior.
O aporte de R$ 1 milhão, injetado por meio do Corporate Venture Capital (CVC) Comunitá, ajudou a startup a aprimorar seus produtos, que utilizam IoT e Software as a Service (SaS) para automatizar o sensoriamento e o controle na irrigação e na injeção de fertilizantes – principalmente na plantação de uva. “A partir da parceria, evoluímos nosso produto e passamos a estender a solução a mais cooperativas dentro do Sistema Sicredi”, explica Frederico Brito, CEO e CFO da Elysios. Atualmente, a agritech tem 200 clientes espalhados pelo país.