O vinho gaúcho ainda responde por mais de 80% da produção nacional da bebida, mesmo com a atual expansão da vitivinicultura Brasil afora. Ao contrário do que o imaginário popular nos faz acreditar, essa tradição não nasceu na Serra do Nordeste, pelas mãos dos imigrantes que chegaram ao Rio Grande do Sul na segunda metade do século 19. Duzentos e cinquenta anos antes dos primeiros colonos italianos, padres jesuítas espanhóis já elaboravam vinhos na região Noroeste do estado, em algumas das povoações conhecidas como os Sete Povos das Missões.
Ao padre jesuíta espanhol Roque González de Santa Cruz é atribuído o cultivo das primeiras vinhas na região, por volta do ano de 1600. As cepas pioneiras foram as espanholas Criolla e Criolla Chica, também chamadas mais tarde de País e Mission, todas derivadas da casta Listán Prieto e trazidas das Ilhas Canárias. São as mesmas, aliás, que deram origem às vigorosas indústrias vinícolas do Chile e da Argentina – países que, no momento, fazem um grande esforço para resgatar essas variedades populares do passado em rótulos sofisticados de pequena tiragem. Os vinhos elaborados naquela época eram, possivelmente, licorosos, e destinados principalmente à celebração das missas.
A história do vinho na região das Missões Jesuíticas espanholas do Rio Grande do Sul era para ter desaparecido com o desmantelamento dos Sete Povos, após as sangrentas escaramuças com as forças da Coroa Portuguesa. Mas a semente plantada pelo padre Roque González – que teria contado com a ajuda de indígenas Guaranis catequizados na condução de seus vinhedos pioneiros – nunca morreu. Hibernou, digamos. E ressurge, hoje, com a emergência de uma nova e promissora região vitivinícola, batizada de Terroir NoMi, uma contração dos nomes das regiões Noroeste e Missões.
Distribuídas pelos municípios de Ijuí, Santo Ângelo, Entre-Ijuís, Crissiumal, Três de Maio e São Borja, oito vinícolas depositam grandes expectativas no novo terroir – palavra de origem francesa, sem tradução exata, que significa a reunião de fatores como solo, clima, fauna e flora locais e a intervenção do homem, capaz de conferir a um vinho uma identidade única. São elas: Malgarim Vinhos, Vinícola Don Carlos, Vinícola Novos Caminhos Wine, Vinícola Weber, Vinícola Fin, Bortolini Azienda Agrícola, Casa Tertúlia e Vinhos Família WF.
Seus vinhos e opções enoturísticas só agora comecem a receber certa atenção da mídia e do público em geral. Mas algumas, como a Malgarim Vinhos, de São Borja, e a Don Carlos, de Santo Ângelo, já estão ativas há 30 e 20 anos, respectivamente – ainda assim, muito pouco tempo no universo milenar do vinho. Todas estão testando variedades viníferas para descobrir quais se adaptam melhor às condições ambientais da região.
O principal ponto em comum desses novos pioneiros do vinho brasileiro é o desejo de inovar. Para tanto, além de cultivarem cepas consagradas, como Cabernet Sauvignon, Merlot ou Chardonnay, investem em variedades pouco conhecidas no Brasil, como a grega Xinomavro, a georgiana Saperavi, a montenegrina e sérvia Vranac. Ou as italianas Casavecchia e Nero D’Avola, além da espanhola Tempranillo. “A uva Tempranillo fez morada aqui”, comemora Sérgio Malgarim, gestor da Malgarim Vinhos, marca que já conquistou importantes prêmios internacionais para seus rótulos elaborados com esta cepa. “Nossos tintos têm estrutura viscosa, potência e grande complexidade aromática.” Com efeito, o Tempranillo Sepé tem mais de 14% de álcool.
Os verões secos e quentes, a grande amplitude térmica (diferença entre as temperaturas do dia e da noite) e os solos argilosos contribuem para o estilo encorpado – por vezes um pouco rústico –, com alto teor alcoólico e taninos bem marcados da maioria dos vinhos tintos do Terroir NoMi. Mas também há brancos, rosés e espumantes supreendentemente frescos no portfólio da região. E boa parte deles carrega consigo uma identidade local bem definida: ou seja, são “vinhos de terroir”, característica muito apreciada pelos enófilos contemporâneos mais exigentes. Os blends também podem ser inusitados – como um “vinho laranja” da Don Carlos, elaborado com as uvas Palava, Chardonnay, Viognier e Pinot Bianco. “Estamos sempre procurando novas alternativas”, resume o vinhateiro Carlos Boff, da Don Carlos.
A inovação não se limita às castas ainda pouco conhecidas no Brasil. Também os rótulos desses vinhos remetem à longa tradição missioneira. São nomes como Sepé, da Malgarim, que alude ao índio Guarani Sepé Tiarajú, símbolo da resiliência do povo gaúcho. Ou Aragano, da Don Carlos, sinônimo de algo arisco, como um cavalo difícil de aceitar a doma. Ambos carregam um forte apelo histórico e cultural. Afinal, é sobre essa rica tradição que ocorre o renascimento da produção local. Ademais, o Terroir NoMi não precisou inventar um storytelling para seus vinhos: uma história genuína de quatro séculos é um selo de marketing que qualquer região vinícola do mundo gostaria de ostentar em seus rótulos.

Memorial líquido
Não existe vinho autêntico sem história, paisagem e autoria. História, a região tem de sobra, como atestam as ruínas de São Miguel das Missões, por exemplo. Paisagens típicas, com suas coxilhas cobertas por plantações de trigo, no inverno, e de soja no verão. A autoralidade é uma característica inseparável dos vinhos locais, que refletem não apenas o terroir, mas também o gosto pessoal de seus vinhateiros por castas raras no Brasil.
Mas faltava um componente importante neste enredo: a uva Mission, ou País, cultivada pelos jesuítas. Afinal, foi com ela que tudo começou. Era desejo do proprietário da vinícola Don Carlos e de outros produtores do Terroir NoMi construírem um memorial em homenagem à variedade que deu origem a vitivinicultura no Sul do continente. Mas, depois de muita reflexão, Boff achou que a melhor maneira de homenagear as vinhas ancestrais do padre Roque Gonzales seria cultivar novos vinhedos com a uva dos jesuítas, evidentemente.
Em vez de um monumento de aço ou de pedra, a homenagem teria de ser mais original: um “memorial líquido”. Ou seja, um vinho elaborado com a uva Mission. Desde então, os produtores do terroir NoMi estão buscando clones desta variedade no Chile, na Argentina e até mesmo na Espanha, para os multiplicarem em viveiros locais e, mais adiante, após a certificação do Ministério da Agricultura, reproduzirem o primeiro vinho de uva Mission. Quatrocentos anos depois.
O desafio de multiplicar os clones caberá à Vinícola Weber, de Crissiumal, que possui um dos maiores viveiros de mudas de citros e videiras do Brasil, atualmente com mais de 40 cultivares diferentes em suas estufas. O trabalho contará com o apoio da Embrapa Uva e Vinho, de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha. Se tudo der certo, em quatro anos a primeira safra de Mission já estará engarrafada. De acordo com Boff, os vinhos desta variedade lembram um pouco os feitos com a uva Pinot Noir – leves e de pouca cor. A ideia é elaborar, além de tintos, um espumante rosé e um vinho licoroso, ao estilo dos vinhos de missa. Até lá, os produtores continuarão importando garrafas de vinhos Mission do Chile e da Argentina e promovendo degustações para conhecerem melhor o perfil da casta pioneira.
Mas os planos não ficam por aí. As vinícolas que compõem o Terroir NoMi já estão se organizando em uma associação e buscam apoio da Embrapa para a conquista de uma Indicação de Procedência (IP) junto ao Intitulado Nacional de Propriedade Indústrial (INPI), a exemplo de outras regiões vinícolas demarcadas brasileiras. A demarcação não é uma certificação de qualidade, mas uma espécie de certidão de identidade regional de um produto, que tem considerável apelo comercial entre os consumidores. “O processo é lento e caro, pode demorar um pouco, mas vai sair. Não tem como não sair”, prevê Carlos Boff.
Vinho de algoritmo
A retomada da vitivinicultura nas regiões Noroeste e Missões do Rio Grande do Sul não olha apenas para o passado – mira também o futuro. Tanto que já saiu da região o primeiro vinho elaborado com o auxílio de Inteligência Artificial no país. O vinho IA Corte I, da Casa Tertúlia, de Três de Maio, resultou de sete anos de estudos e muitos testes. A família Hilgert, proprietária da vinícola, trabalhou unida no projeto, somando as expertises de cada integrante: Leodir, o pai, é administrador de empresas; Viviane, a mãe, é enóloga e sommelière; Jéssica, a filha, é filósofa; e Gabriel, o filho, é engenheiro e especialista em Tecnologia da Informação. Desde a pandemia, a família voltou a se reunir na propriedade rural onde está instalada a vinícola. E foi desta convivência que surgiu a ideia de contrapor a um setor tradicional uma nova abordagem, “baseada na ciência e na matemática”.
Depois de muitas pesquisas, iniciadas em 2017, Gabriel treinou uma rede neural de algoritmos que aprenderam como diferentes características físico-químicas de um vinho são percebidas pelos degustadores humanos. Assim, seria possível predizer com alto grau de precisão se um vinho será bem avaliado numa análise sensorial. De acordo com a Casa Tertúlia, o sistema vai além, sendo capaz de sugerir receitas de blends com as melhores combinações e proporções de diferentes lotes de vinhos.
Após cinco anos, e análises de mais de 2 mil avaliações de vinhos bem pontuados em concursos, a vinícola conseguiu confirmar, na prática, o potencial dos algoritmos de aprendizagem. Alguns dos primeiros vinhos elaborados com o auxílio da IA foram bem classificados no Concurso Wines Brazil Awards, no Rio de Janeiro, em 2021, entre mais de 2 mil vinhos brasileiros. Os mesmos resultados se repetiriam nos dois anos seguintes. Isso estimulou os produtores a seguirem em frente. Foi assim que nasceu o vinho Casa Tertúlia IA Corte I.
A bebida vem sendo bem-recebida pelo mercado, garante Leodir Hilgert, tanto por conta da inovação quanto pela degustação. “Nossa expectativa não era diferente disso, pois trata-se de uma IA respaldada por base científica avançada.”
Lançada em outubro de 2024 na ProWine, em São Paulo – a maior feira de vinhos e destilados do país -, a novidade pode abrir caminho para a produção em grande escala de vinhos de melhor qualidade e com menores custos de produção. “Nossa tecnologia tem o potencial de elevar a qualidade dos vinhos de corte ao desenvolver receitas que maximizem o potencial de cada varietal, resultando em blends que destacam o melhor de cada uva. Isso possibilita a produção de vinhos de alta qualidade em maior escala, tornando-os mais acessíveis aos apreciadores ao longo do tempo.”

De cabanas a resort
Dificilmente, nos dias atuais, uma vinícola consegue sobreviver exclusivamente da comercialização de seus rótulos. A sustentabilidade financeira depende cada vez mais da combinação da venda de vinhos nos receptivos das próprias vinícolas. Isso inclui serviços de hotelaria, atrações culturais e gastronômicas, além de experiências originais entre as vinhas – o chamado enoturismo. Projetos de hotéis, pousadas, restaurantes e até de um resort, que formarão um “corredor enogastronômico”, estão a pleno vapor.
A Don Carlos, por exemplo, já dispõe de uma confortável cabana entre seus vinhedos e um restaurante para recepcionar turistas. Outras serão construídas. A Casa Tertúlia, que conta com um amplo espaço ao ar livre e restaurante, oferece degustações, jantares harmonizados, visitas guiadas e workshops de vinhos. Na Vinícola Weber, há um wine bar para receber turistas ao ar livre. Além disso, o Espaço Merlot pode ser alugado para casamentos, seminários e eventos empresariais. A Malgarim Vinhos planeja construir um hotel.
O potencial enoturístico da região já atraiu, também, um investimento de grande porte. O Costana Frontier Resort deverá ser construído em Novo Machado, em meio à mata nativa e às margens do Rio Uruguai. Com forte apelo à cultura e à tradição locais, o empreendimento prevê em torno de R$ 780 milhões em investimentos e já conta com licenciamento ambiental e registro de incorporação imobiliária. “Será um marco para a região, oferecendo a todos a oportunidade de fazer parte do início de uma nova era no setor turístico local”, diz Mogar Sincak, diretor da Tecnika Engenharia, responsável pelo Costana. O resort de Novo Machado terá capacidade para mais de 1 mil hóspedes e suas obras devem iniciar até o fim de 2025.
A região das Missões ainda possui pontos turísticos que remetem a séculos de história, como as ruínas de São Miguel ou a Catedral de Santo Ângelo. A distância de cerca de 400 quilômetros de Porto Alegre, não preocupa os produtores: eles dizem que aquela parte do estado é bem servida de aeroportos, tanto em Santo Ângelo como em Passo Fundo e, futuramente, em São Borja, que recebem voos diretos de São Paulo. Visitar a região onde a história do vinho gaúcho começou pode não ser uma viagem apenas pela geografia do Rio Grande do Sul, mas, também – e principalmente –, pelo tempo.