Há algo acontecendo do outro lado da fronteira. Não é algo exatamente novo. Mas está mais sofisticado, mais diverso e talvez mais alinhado ao espírito do tempo.

Em 2025, cerca de 3,6 milhões de pessoas visitaram o Uruguai, uma alta de 8% em comparação ao ano anterior. Só de brasileiros foram 489 mil, mais da metade deles (52,8%) do Rio Grande do Sul. E a ideia é dobrar o público até o fim da década, através de uma estratégia que combina imersão cultural, conexão genuína e tempo para desfrutar.

“O ritmo é diferente no Uruguai”, afirma a brasileira Jamile Cardoso, consultora de viagens que vive no país e é autora do blog Viver Uruguay. “Acho que isso explica por que mais pessoas estão vindo. Elas querem experiências mais amigáveis, autênticas e tranquilas. E sabem que vão encontrar isso aqui.”

Esse estilo de viagem tem nome: slow travel — ou sin apuro, em espanhol rioplatense. É uma maneira de percorrer o destino com mais liberdade, mergulhando em seu cotidiano, sem a ansiedade de visitar, fotografar e postar todos os pontos turísticos. E o paisito é perfeito para isso.

Com vista privilegiada do mar, Casapueblo oferece um pôr do sol espetacular, acompanhado diariamente da leitura de um poema de Carlos Paez Vilaró.
Com vista privilegiada do mar, Casapueblo oferece um pôr do sol espetacular, acompanhado diariamente da leitura de um poema de Carlos Paez Vilaró.

A orla de Montevidéu, uma das mais longas do mundo, é um convite para caminhar sem pressa. Ou fazer como os moradores, que usam o espaço para se exercitar, divertir-se ou apenas admirar o Rio da Prata enquanto conversam e tomam mate sentados em suas cadeiras dobráveis.

Passar horas em uma vinícola familiar, almoçar lentamente numa legítima parrilla uruguaia ou sair do roteiro para descobrir pequenos cafés, museus e livrarias também virou parte da experiência. “O que percebemos é um visitante mais interessado em gastronomia, vinhos, cultura, natureza, bem-estar e experiências premium”, enumera Fernando Tapia, presidente da Câmara Uruguaia de Turismo. “Depois da pandemia, essa tendência ficou ainda mais clara.”

ROTEIROS DE ENCANTAR

Claro, Punta del Este continua um hotspot de luxo internacional. A cada verão, milhares de turistas viajam à península atraídos por praias, cassinos, festas, resorts, beach clubs e restaurantes badalados. Os que procuram sofisticação mais discreta esticam a viagem a José Ignacio, antigo vilarejo de pescadores que virou refúgio de celebridades, empresários e viajantes em busca de exclusividade sem ostentação.

Mas reduzir o Uruguai à opulência, ou ao verão, é certamente um erro. A própria Punta del Este mudou. “Antigamente, depois do Carnaval, isso aqui virava uma cidade fantasma”, afirma Jessica Zeppellini, criadora da página no Instagram Punta para Brasileiros. Hoje, há cafés, bares e restaurantes funcionando o ano inteiro. Novos empreendimentos também estão surgindo. Nos arredores, ainda há vinícolas, museus, olivares e serras que tornam o destino mais interessante.

Um dos mais importantes museus do Uruguai, o MACA está a 20 minutos de Punta del Este.
Um dos mais importantes museus do Uruguai, o MACA está a 20 minutos de Punta del Este.

Montevidéu também tem seus encantos. A área central de Ciudad Vieja preserva um ar melancólico e cultural. Ali, estão construções históricas, museus e cafés que transportam os visitantes para outro tempo.

Atravessando a Praça Independência, a cidade se abre para seu lado mais contemporâneo. Bairros como Pocitos e Punta Carretas vivem um boom imobiliário. Nos últimos anos, a capital de 1,3 milhão de habitantes (o equivalente à população de Porto Alegre) ganhou rooftops, espaços culturais e mercados gastronômicos, sem abrir mão da tranquilidade. Estamos em uma capital, mas sem a correria habitual de uma metrópole.

Seguindo para o oeste, a 180 quilômetros de Montevidéu, está Colônia do Sacramento, a cidade mais antiga do Uruguai. Fundada em 1680 por Manuel Lobo, governador português do Rio de Janeiro, Colônia preserva as marcas das ocupações lusitana e espanhola — que disputaram o território durante o período colonial. “É um dos nossos pontos de encontro com o Brasil”, diz Paula Alves, que atua na divisão de divulgação do Ministério de Turismo do Uruguai.

Hoje, as ruazinhas de pedra, as casas baixas e as lamparinas antigas que ainda iluminam as fachadas fazem de Colônia do Sacramento um dos destinos mais charmosos do país — e Patrimônio Mundial da UNESCO. Perto dali, também estão duas rotas importantes: a do vinho (na região de Carmelo) e a do queijo (em Colonia Valdense e Nueva Helvecia).

Além do roteiro clássico por Punta, Montevidéu e Colônia, outros destinos começam a ganhar projeção. No departamento de Rocha, vilarejos costeiros como Punta del Diablo e Cabo Polônio atraem veranistas em busca de natureza quase intocada — sem resort, sem multidão. Já as cidades de Salto e Paysandú, no interior, conquistam especialmente o público mais velho com suas águas termais e um ritmo ainda mais pausado que o restante do país.

Mas saiba que o Uruguai não é um destino barato. Itens como transporte e gastronomia são os que mais pesam no orçamento. Para se ter ideia, o litro da gasolina no país está na casa dos R$ 11. Com planejamento, porém, é possível equilibrar as contas. Vale lembrar que turistas estrangeiros recebem desconto de 9% de IVA ao pagar restaurantes com cartão internacional de crédito ou débito. A isenção do imposto também se aplica a locadoras de veículos, eventos e hotéis. Neste último, aliás, o IVA é zero.

A seguir, confira atrações e experiências que reforçam por que, em um mundo cada vez mais acelerado, viajar sin apuro ao Uruguai é um verdadeiro luxo.

Um roteiro a pé por Montevidéu

Embora a proposta seja viajar sem pressa pelo Uruguai, nem sempre isso é possível. A boa notícia é que Montevidéu é plana e muito fácil de explorar a pé. O ponto de partida é a Plaza Independencia, onde ficam o mausoléu de José Artigas, herói nacional uruguaio, e o icônico Palacio Salvo, que já foi o maior prédio da América Latina.

Atravesse a Puerta de la Ciudadela, antiga entrada da cidade, e explore a Ciudad Vieja. Conheça o Teatro Solís — talvez assistindo a um espetáculo ou fazendo o tour guiado em português. Em frente à casa, há uma pequena travessa que leva ao Museo Torres García, homenagem ao maior nome das artes plásticas uruguaias. Na quadra seguinte, está o Museo Andes 1972, dedicado à história do acidente aéreo retratado no filme A Sociedade da Neve.

Mais adiante estão a Plaza Constitución (onde foi jurada a constituição da República Oriental do Uruguai, em julho de 1830) e a elegante Plaza Zabala. Pertinho dali fica o Museo del Gaucho y La Moneda, gratuito e rico em história — assim como o Mercado del Puerto, polo gastronômico bastante frequentado por turistas.

Cabaña Veronica, uma das muitas opções de parrillas no Mercado del Puerto.
Cabaña Veronica, uma das muitas opções de parrillas no Mercado del Puerto.

Após o almoço, vá ao Estádio Centenário e depois caminhe pelo Parque Rodó ou pela rambla de Pocitos, onde fica o famoso letreiro de Montevidéu. À noite, todos os caminhos levam ao célebre Baar Fun Fun, que oferece apresentações de tango e candombe. Se tiver mais tempo na cidade, vale explorar bairros como Carrasco e Palermo. Outra boa pedida é subir ao Mirador Panorâmico e observar a capital uruguaia a 80 metros de altura.

  • PARA UM ALMOÇO QUE VIRA TARDE: Aprecie os clássicos uruguaios — chivitos, milanesas e parrillas — em polos gastronômicos como o Mercado del Puerto, o MAM e o Mercado Ferrando.

    Oncecatorce, em Montevidéu: parrilla como os uruguaios gostam.
    Oncecatorce, em Montevidéu: parrilla como os uruguaios gostam.
  • PARA COMER CARNE COMO UM URUGUAIO: La Pulpería, La Otra e Oncecatorce fogem do circuito turístico e ajudam a explicar por que o assado é quase uma instituição nacional.
  • PARA GASTAR MENOS: Lancherias como Facal e La Pasiva servem empanadas, panchos e chivitos a bons preços. O menu del día, no almoço, além de rotisserias e fábricas artesanais de massa, também ajudam a economizar.
  • PARA ESQUECER DA HORA: Opte pelas cafeterias históricas que transmitem o espírito montevideano. Entre elas, estão Las Misiones, Café La Farmacia e o tradicional Café Brasilero.
  • PARA MISTURAR LIVROS E SILÊNCIO: Escaramuza e Feltrinelli são mais do que livrarias: também são lugares para desacelerar, pedir um café e deixar a cidade acontecer ao redor.
  • PARA ENTENDER O RITMO DA CIDADE: Passe na Wild Bakery, em Pocitos, e compre uma deliciosa medialuna ou um croissant — e vá à rambla contemplar o pôr do sol. Em Montevidéu, às vezes o melhor programa é simplesmente não fazer nada.

O charme de Colônia do Sacramento

Caminhar sem rumo pelo Bairro Histórico — Patrimônio Mundial da UNESCO — é o grande programa de Colônia do Sacramento. Entre ruas de pedra, construções coloniais e árvores charmosas, estão atrações como o Portón de Campo, que ainda conserva trechos da muralha e da antiga ponte levadiça, e a famosa Calle de los Suspiros, cercada de lendas e do casario que remete ao século 18.

Nos arredores da Plaza Mayor, estão cafés, restaurantes e galerias. Logo adiante, o viajante chega às ruínas do Convento de San Francisco e o Faro de Colonia, inaugurado em 1857. Após subir os 118 degraus da estreita escada em espiral do farol, o visitante encontra uma das vistas mais bonitas da cidade, do Rio da Prata e, em dias limpos, até mesmo a silhueta de Buenos Aires. Muitos brasileiros, aliás, chegam ao Uruguai a partir da capital porteña, em passeios de bate-volta até Colônia — distante apenas uma hora e meia de ferryboat.

Pernoitar em Colônia do Sacramento ajuda a aproveitar o ritmo desacelerado do lugar.
Pernoitar em Colônia do Sacramento ajuda a aproveitar o ritmo desacelerado do lugar.

Para comer bem, vá ao Charco Bistró, que funciona em um dos hotéis mais charmosos da região. Outra hospedagem encantadora (com ótimo restaurante) é a Las Liebres, instalada em uma casa da década de 1920 com apenas quatro suítes. Perto dali, também está a vinícola Los Cerros de San Juan, fundada em 1854 e considerada a mais antiga do Uruguai.

Punta del Este (e arredores) no inverno

Tranquila, tranquila: assim é Punta del Este nos meses mais frios do ano. A partir do outono, o movimento cai, as ruas ficam mais vazias e o ritmo desacelera. A área mais animada está ao longo da Avenida Gorlero e junto ao porto. Ali, não deixe de observar os lobos marinhos — que costumam se alimentar das sobras dos pescadores.

Um passeio pela rambla é fundamental. A pé ou de bike, você pode conhecer as praias e o clássico monumento Los Dedos. Almoce no 481 Gourmet ou faça um lanchinho na Medialunas Calentitas e parta em direção a Manantiales — onde fica o MACA, principal museu de arte contemporânea do Uruguai, inaugurado em 2022 pelo escultor Pablo Atchugarry. Restaurantes da região, como El Abrazo e Almacén de Campo La 104, são boas opções para harmonizar a visita ao museu.

Os arredores de Punta del Este realmente encantam. Em Punta Ballena, está um dos principais cartões-postais do Uruguai: a icônica Casapueblo. A construção-museu, criada pelo artista Carlos Páez Vilaró, atrai visitantes diariamente. Fique para ver o pôr do sol, a experiência é espetacular.

Casapueblo, um dos ícones do Uruguai.
Casapueblo, um dos ícones do Uruguai.

Já José Ignacio convida à contemplação. O pequeno vilarejo — transformado no balneário mais cool da região — combina praias preservadas e uma cena gastronômica sofisticada. É lá que fica o Parador La Huella, o mais famoso e premiado restaurante do Uruguai. Subir ao farol e passar algum tempo na livraria-café Rizoma são outras boas maneiras de sentir a buena vibra do lugar.

Em Piriápolis, o Cerro San Antonio oferece uma linda vista do litoral uruguaio. Se um pernoite estiver nos planos, considere Piedra de las Ánimas, em Nueva Carrara, hospedaria que combina domos, cabanas e experiências ligadas ao turismo ecológico.

Conheça a Rota do Queijo no Uruguai

Entre as cidades de Colonia Valdense e Nueva Helvecia (a apenas 60 km de Colônia do Sacramento), pequenas queijarias preservam sabores e tradições herdados dos imigrantes suíços e italianos que se estabeleceram na região. Entre elas está a Granja La Cumbre, que combina brunch rural com degustação de queijos artesanais.

Também valem a visita a Quesos Los Criollitos, a Quesería Las Acacias e a Posada de Campo La Vigna Ecolifestyle. Esta produz mais de 20 tipos de queijo de cabra, ovelha e vaca. Além da produção artesanal, a pousada conta com restaurante e quatro quartos.

Rota do Vinho também atrai atenção

Famoso por seu Tannat — cepa francesa que encontrou no país uma versão mais equilibrada e elegante —, o Uruguai vem se consolidando como destino de enoturismo, à semelhança da Argentina e do Chile. Suas mais de 50 vinícolas, espalhadas por três regiões, oferecem experiências que combinam degustações, gastronomia e hospedagem.

Entre elas está a tradicionalíssima Narbona, fundada em 1909, em Carmelo — cidade-sensação para enófilos. A rota do vinho continua pelas proximidades de Montevidéu, onde está a BraccoBosca Winery, que aposta em uma experiência intimista, com degustações em clima familiar e jardins com vista para os vinhedos. Já a Bodega Garzón, em Maldonado, cativa os turistas com seus vinhedos cinematográficos e seu restaurante premiado.

Rambla de Pocitos em Montevidéu
Rambla de Pocitos em Montevidéu

SERVIÇO: COMO CHEGAR AO URUGUAI

ÔNIBUS – As empresas TTL e EGA mantêm conexões regulares entre Porto Alegre e Montevidéu. Empresas de turismo como Elos Travel, Trip Tri e Trip da Gurizada realizam excursões, especialmente durante o verão e em feriados.

AVIÃO – Desde a enchente de 2024, a Azul suspendeu a rota aérea entre Porto Alegre e Montevidéu. Voos diretos para o Uruguai partem apenas para Punta del Este — e somente no próximo verão, entre dezembro de 2026 e o Carnaval de 2027. Uma alternativa é embarcar por outros aeroportos, através de conexões.

CARRO – Quase todos os pedágios são eletrônicos no Uruguai — e as tags brasileiras não funcionam. É preciso usar o sistema Telepeaje, que pode ser contratado online ou na fronteira. Também não esqueça de levar a CNH física (app não é aceito), a Carta Verde (seguro obrigatório para circulação no Mercosul; impresso) e, em caso de carro financiado, a autorização do banco para saída internacional.

DOCUMENTAÇÃO – Basta apresentar a carteira de identidade civil física (RG original), desde que expedida nos últimos dez anos, ou passaporte nacional com pelo menos seis meses de validade. CNH não é aceita.

Texto de Leonardo Pujol, de Montevidéu, com fotos de Jamile Cardoso, Alexis Neuquet, Felipe Acosta, Leonardo Pujol e Samuel/Audrey Media Network.