Imagine um golfista imerso em pensamentos num bunker de areia, vendo sua bolinha em uma situação aflitiva, parcialmente enterrada. Ele precisa usar um taco apropriado para a ocasião, superar o terreno de jogo e desafiar seus próprios limites para levar a bolinha o mais próximo possível ao buraco seguinte. Usar habilidades físicas e mentais para fazer a partida continuar seu fluxo, no fim das contas. À sua volta, uma redoma verde de natureza. Próximo a ele, o outro jogador, que não é exatamente o adversário – o principal rival é o campo de jogo propriamente dito. Nessa cena, encontram-se alguns dos principais atributos do golfe – a necessidade de resiliência diante dos obstáculos, a natureza contemplativa do esporte, o terreno como verdadeiro adversário e, mais do que a competição, o companheirismo entre os colegas de caminhada.

No largo tempo de convivência de uma partida (que geralmente dura mais de quatro horas), é natural que apareçam assuntos alheios ao campo, mais especificamente relacionados a negócios – e é dessa forma que o green, área que compreende o buraco que está em jogo, torna-se um escritório a céu aberto. Não à toa, o golfe se converteu como um canal precioso para que empresários e executivos estabeleçam conexões fora da pressão do ambiente corporativo. Conforme pesquisa da Syracuse University, 90% dos CEOs americanos da Fortune 500 praticam golfe – e 54% deles acreditam que o esporte é a forma mais efetiva de networking.

Criado na Escócia, no século 15, o golfe é um esporte considerado de elite, em razão dos custos elevados. Portanto, a maioria dos praticantes tem alto poder aquisitivo. Assessor de investimentos, há cerca de dez anos Rivo Bühler Junior uniu o desejo de trocar de residência e a paixão pelas tacadas. Ele se mudou para o Terra Ville, condomínio na Zona Sul de Porto Alegre, onde está o Belém Novo Golf Club (BNGC). “O networking é fundamental na minha área, em que buscamos públicos com ticket de investimento”, explica. “O golfe surgiu como uma das portas para aumentar as possibilidades de relacionamento com potenciais clientes.”

Não é por acaso que grandes empresas, como GM e Mercedes-Benz, costumam deter títulos de clubes de golfe para repassá-los a seus principais executivos. A explicação para que esse networking aconteça com naturalidade é que o golfe estimula um relacionamento que não se resume aos negócios ou mesmo ao esporte – ele está baseado, fundamentalmente, na confiança. “Você é muito bem recebido quando vai visitar outros clubes. Há coquetéis e vários momentos para o networking”, conta Rivo. O turismo através do golfe, aliás, é uma prática comum entre os entusiastas do esporte. Desde o âmbito regional, viajando para disputar competições realizadas no Rio Grande do Sul, até excursões organizadas por grupos de golfistas para jogar fora do país, principalmente nos Estados Unidos e no Caribe.

Turning point

Entre os praticantes, uma questão recorrente é que o verdejante terreno do golfe foi o caminho escolhido quando surgiu a necessidade de dar uma guinada na vida. Empresário da indústria e do comércio, Luis Carlos Baumgarten passava por uma fase desgastante quando começou a praticar golfe, em 1994. O fato de possuir residência em Gramado o aproximou do Gramado Golf Club. “No começo foi como uma distração, mas logo virou uma paixão. O golfe me trouxe muitas considerações que, no dia a dia, a gente não percebe.”

A prática passou a ser parte indissociável da vida do empresário, que pouco depois se tornaria presidente da Federação Rio-Grandense de Golfe (FRGG) e vice-presidente da Confederação Brasileira de Golfe (CBGolfe). “O golfe é um desafio pessoal. É você contra o campo. A prática te dá a noção exata das coisas que você pode ou não pode fazer.” Hoje diretor de golfe do BNGC, Baumgarten foi pioneiro na criação de regulamentos e torneios. Por sua contribuição, a taça itinerante do Tour Estadual Sênior passou a levar seu nome em 2023.

Muito praticado nos Estados Unidos e na Europa, apesar de seu caráter elitista, o golfe aos poucos torna-se mais popular no Brasil, com os campos abrindo as portas para quem não é membro. Atualmente, são cerca de 22 mil praticantes nos mais de 100 clubes espalhados pelo país. A pandemia também impulsionou seu desenvolvimento, já que o esporte permitia o distanciamento social necessário para as circunstâncias – estima-se que 800 mil mulheres tenham começado a jogar golfe nos EUA desde a propagação do coronavírus.

Quanto ao estilo de vida de um golfista, para Luis Carlos Baumgarten o Brasil é diferente do resto do mundo. “Aqui é um esporte muito elitizado. Não temos campos públicos, como nos EUA, na Europa e mesmo na Argentina. A relação com o esporte já nasce de uma circunstância de que é preciso ter certo poder aquisitivo para poder jogar.” Mais do que buscar um estilo de vida, o empresário acredita que as pessoas adentram o universo do golfe também pela terapia que proporciona. “É um desafio muito grande alcançar certo nível. O golfe exige muito e vai te dando aos poucos o retorno do que é investido no esporte.”

Além dos gabinetes

O golfe já mostrou que tem capacidade para interferir na própria geopolítica global. O vínculo entre o esporte e os círculos mais elevados da política pode ser exemplificado pela histórica relação que os presidentes americanos têm com os campos, representando todo um estilo de vida que floresceu no país a partir dos anos 1950. Muitas decisões de impacto na política internacional foram tomadas nos tapetes verdes de clubes exclusivos.

Em 1957, treze anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, no Burning Tree Club, em Washington DC, o clima ainda bélico entre Estados Unidos e Japão foi atenuado com uma partida entre o presidente americano, Dwight Eisenhower, e o primeiro-ministro japonês, Nobusuke Kishi. Aquele encontro deu início à disposição mútua para uma cooperação entre as nações, que até então mantinham uma relação hostil. Ou seja, networking de proporção mundial.

Assim como Eisenhower, vários outros presidentes americanos fizeram do green uma extensão do Salão Oval, aproveitando o ambiente informal para construir relações políticas e estreitar laços com outros chefes de estado. “Não só Eisenhower trouxe o golfe para a Casa Branca: ele trouxe a Casa Branca para o campo de golfe”, diz um texto da Associação de Golfe Norte-Americana. De fato, o presidente era tão entusiasmado pelo esporte que chegou a mandar instalar um putting green, a área do campo mais próxima ao buraco, em pleno gramado da Casa Branca. E a relação com o esporte não depende da opção partidária: vai desde o democrata Barack Obama até o republicano Donald Trump, que possui dezenas de campos de golfe ao redor do planeta.

Apesar de transitar entre vários clubes do país, a família Eisenhower desenvolveu uma relação íntima com o Augusta National Golf Club, do qual o ex-presidente tornou-se membro em 1948. Foi para lá que ele rumou um dia após sua eleição para, em meio à tensão da Guerra Fria, ter a tranquilidade necessária para escolher seu gabinete. Também naquele cenário bucólico Eisenhower terminou de escrever o discurso do Estado da Nação, em abril de 1953, sobre o controle internacional de energia atômica.

Atualmente, no torneio Masters realizado no Augusta National Golf Club, em torno de um centenário e emblemático carvalho, uma vez por ano parte da elite empresarial se reúne para compartilhar sua paixão pelo golfe, mas também para conversar sobre os rumos da economia mundial – da qual são os próprios protagonistas. Afinal de contas, usando o cobiçado casaco verde que identifica o torneio estão nomes como Bill Gates e Warren Buffet. E, mesmo que as patrocinadoras do evento sejam marcas como IBM, AT&T e Mercedes-Benz, não é possível ver banners chamativos ou anúncios das marcas – as ações publicitárias espalhafatosas estão proibidas, em nome da sofisticação.

Filtro estreito

O caráter elitista não deve assustar quem pretende se aventurar nos campos de golfe. Até porque hoje muitos clubes permitem que não sócios possam disputar partidas, mediante o pagamento de uma taxa. Esse é o caso do BNGC, que Wagner Vieira frequenta desde os 12 anos. Para ajudar nas despesas de casa, começou a atuar como caddie – pessoa que carrega a bolsa de tacos e auxilia o golfista. Logo, passou a trabalhar no departamento de golfe, realizou especializações em cursos nacionais e internacionais e tornou-se profissional. Há dez anos, ocupa o cargo de Head Pro do BNGC, responsável pela supervisão de aulas e treinos. Para Wagner, não existe um perfil único de um praticante do golfe. “Geralmente, o golfista é uma pessoa determinada, com disciplina e paciência”, define. “Gosto de uma frase que diz: a pessoa não se torna golfista ao comprar os tacos e fazer algumas aulas, mas sim quando entende o espírito do jogo.”

No entanto, é claro que a premissa da exclusividade e a busca por status se refletem também nos valores envolvidos. A partir de R$ 10 mil é possível se associar a um clube, mas para ser membro do São Paulo Golf Club, por exemplo, o valor pode ultrapassar os R$ 600 mil, além de uma mensalidade em torno de R$ 4 mil. Especialmente nos clubes mais tradicionais, pode ocorrer uma avaliação criteriosa para que o novo membro seja aceito.

Também o look para praticar o golfe requer um bom investimento – um calçado específico para o esporte facilmente ultrapassa R$ 1 mil, enquanto um conjunto de tacos de uma marca prestigiada, como TaylorMade ou Callaway, pode superar os R$ 15 mil. Cada fase do jogo exige um diferente taco (em inglês, club) – um bom putter, modelo usado na região mais próxima ao buraco, que às vezes acompanha o jogador por toda a vida, pode custar até R$ 5 mil.

Quanto à vestimenta, nem pensar em aparecer de camiseta e calção em um campo de golfe. “O dress code existe e é muito cobrado nos clubes”, aponta Rivo Bühler. Calçado específico, calça de sarja, camisa polo e boné, de preferência das marcas vinculadas ao golfe – essa é a combinação apropriada para empunhar o driver, taco que se usa para a primeira tacada.

Uma questão de valores

O estilo de vida de um golfista não é algo óbvio e vai muito além do look e dos acessórios: é uma forma de encarar a vida e as relações interpessoais, com respeito aos códigos não só do esporte, mas da própria convivência. No golfe, por exemplo, não existe juiz, portanto os jogadores são responsáveis por registrar os seus próprios erros nos cartões – e a ousadia da trapaça seria algo imperdoável. Ou seja, é um esporte que preza pelos seus próprios princípios e pelo respeito à conduta.

Para Rivo Bühler, muitos empresários escolhem o golfe pelo desafio ao aspecto psicológico. “Já aconteceu de um jogador ser filmado tirando a bola de um bunker com a mão, achando que não estava sendo visto. Há muita coisa que acontece no golfe que fala da personalidade do praticante.” O campo fornece uma espécie de filtro: quem escolher o atalho da desonestidade no green, ou mesmo aquele que se irrita em demasia após cada erro, provavelmente também não será um parceiro longevo e equilibrado no mundo dos negócios.

Essa honestidade e o respeito às regras da civilidade são valores que geralmente os executivos esperam dos seus parceiros de negócios. “A questão da personalidade aflorar no golfe é muito forte, então é possível fazer ou desfazer negócios e relacionamentos”, comenta Rivo, com bom humor. Entremear os assuntos referentes ao esporte com temas de trabalho, e mesmo pessoais, torna o ambiente mais leve e permite um grau de cumplicidade que os escritórios não oferecem. No entanto, para se alcançar uma relação profunda e estabelecer laços de confiança, é fundamental ter o timing para cada assunto: saber a hora de relaxar e o momento de falar de negócios – um pouco de objetividade, outro tanto de descontração.

Em termos de aproximação, nunca se pode apostar num hole in one, a rara jogada em que se acerta um buraco com apenas uma tacada. Qualquer movimento que possa parecer pressão ou puro e simples interesse provavelmente será considerado deselegante – e, sobretudo, um desrespeito ao esporte e a tudo que ele significa para seus praticantes. “O golfe, em especial, é um jogo com desafios constantes – físicos, técnicos e mentais. Eu costumo dizer: quer conhecer a pessoa, traga para o esporte, principalmente para o golfe”, avalia Wagner Vieira.