Em julho de 1973, as águas do litoral capixaba testemunharam o primeiro ato de um casamento proibido. Do Cais de Atalaia, no Porto de Vitória, partia uma remessa de 20 mil toneladas de minério de ferro, extraída das entranhas de Itabira, a cerca de 100 quilômetros de Belo Horizonte. Mas esse não era um embarque comum: a carga estava endereçada à República Popular da China – para o mundo ocidental, ainda um país cercado de medo e desconfiança.
Considerada a joia mais reluzente do Brasil dos militares, a então Companhia Vale do Rio Doce sabia bem o risco político que um negócio com o gigante comunista representava. Mas a hora era de arriscar.
Pouco tempo depois, em setembro, a mineradora dobrou a aposta, enviando mais 26 mil toneladas na mesma rota. No ano seguinte, outras 53 mil toneladas encerraram o acordo. Contra todas as expectativas, o céu não caiu. Nem mesmo a paranoia anticomunista seria capaz de azedar o romance sino-brasileiro.
Dali em diante, o desejo mútuo entre os maiores mercados emergentes do leste e do oeste só cresceu. E o clímax foi atingido em 2023, quando a China se tornou o primeiro país a importar mais de US$ 100 bilhões do Brasil em um único ano.
Vários estados contribuíram para esse feito. E o Rio Grande do Sul foi peça-chave nesse tabuleiro. Em 2023, a nona maior unidade federativa do Brasil exportou para 194 destinos, mantendo a China como o principal, com 24,5% dos embarques — rendendo cerca de US$ 5,5 bilhões. Desde 2008, Pequim se firmou como o principal destino das exportações gaúchas, atraindo carregamentos de soja em grãos, carne suína, celulose e fumo, principalmente. Com um sétimo da população mundial, a China registra uma demanda crescente por bens agrícolas e commodities, impulsionada pelo aumento da população urbana em relação à rural. Mas o que torna o mercado gaúcho tão irresistível para o dragão chinês?
Pode-se tranquilamente recorrer ao clichê caduco de conhecer o passado para entender o presente. Desde o início das reformas chinesas com Deng Xiaoping, em 1978, a economia assumiu o volante, e a política foi para o banco de trás. Ao contrário de seus antecessores, o novo mandatário escancarou as portas para o mundo. Para ele, que nunca foi realmente presidente, embora tenha sido o líder mais influente do país até 1992, pouco importava se o sistema era comunista ou capitalista. Só precisava funcionar. “Não importa se o gato é preto ou branco, desde que cace ratos”, afirmou num discurso na conferência da Liga da Juventude Comunista da China.
Passados dois anos, o governo chinês criou as Zonas Econômicas Especiais (ZEEs). A ideia era atrair pequenos proprietários rurais para se tornarem empresários industriais com apoio estatal. Se em 1979 a China produzia 34,5 milhões de toneladas de aço, em 1996, eram mais de 100 milhões de toneladas. Na virada do século, em 2001, após 15 anos de negociações, o país se tornaria o 143º membro da Organização Mundial do Comércio (OMC). Era o empurrão que faltava para alçar a China à condição de “fábrica do mundo”.
Naquele tempo, o planeta assistia à economia global fazer as malas e trocar o Atlântico pelo Pacífico, enquanto a China crescia como massa de pão. Desde então, o Brasil se consolidou como um importante fornecedor de produtos agrícolas e matérias-primas para o Partido Comunista. Ricardo Leães, pesquisador do Departamento de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul (DEE), vinculado à Secretaria de Planejamento, Governança e Gestão (SPGG), observa que “nenhum país do mundo é autossuficiente nas mercadorias que consome”. É precisamente por isso que a China, mesmo sendo uma potência agrícola, passou a depender cada vez mais de mãos amigas.
Dependência ou morte
Há quem diga que, quando os Estados Unidos espirram, o mundo inteiro pega um resfriado. Mas e quando a China começa a tossir? A crescente importância do país asiático para as exportações gaúchas deixa claro o quanto o estado se apoia naquele mercado. Embora tenha diversificado seus destinos ao longo dos anos, o país garantiu um lugar cativo na pauta exportadora local. Mas essa dependência tem seu preço, já que qualquer alteração nas políticas comerciais pode atingir as receitas de exportação do Rio Grande do Sul.
Não é exagero dizer que a segunda maior economia do mundo atravessa uma fase conturbada: crescimento enfraquecido, desemprego recorde entre jovens e um mercado imobiliário em turbulência. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) projeta uma expansão de 4,9% no Produto Interno Bruto (PIB) para 2024, caindo para 4,5% em 2025. Não é pouca coisa, mas passa longe dos dois dígitos com os quais o mundo uma vez esteve habituado. Quanto ao futuro, economistas estimam que o ritmo de expansão da China deve cair para cerca de um terço do que é hoje até 2030. Teria o dragão chinês perdido o fogo? Não é bem assim.

A China está, na verdade, ajustando seu ritmo para algo mais parecido com os EUA e a Europa. E chamá-lo de lento é relativo: a taxa atual só parece assim quando comparada aos números estratosféricos de anos passados. Seja como for, o setor exportador gaúcho não deverá sentir tanto o impacto. A razão disso está no fato de que a elasticidade da nossa demanda não é tão sensível a variações na renda. Commodities com baixa elasticidade e alta liquidez tendem a ser mais estáveis e previsíveis, oferecendo oportunidades para investimentos mais seguros. Mas o que isso quer dizer?
Ao mesmo tempo em que tendem a continuar fazendo bons negócios na China, os gaúchos terão que se esforçar ainda mais para ampliar as exportações, já que a concorrência tende a fazer com que os compradores optem por quem oferece o menor preço. E aqui a bola de neve cresce: o Censo Agropecuário de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) aponta que o Rio Grande do Sul possui 365.094 estabelecimentos agropecuários, cobrindo uma área de 21,7 milhões de hectares. Cerca de 42% da área das propriedades rurais do RS é ocupada por pastagens, enquanto 36% é destinada a lavouras, permanentes ou temporárias. Esses dados mostram que quase toda a área agrícola já é usada para produção agropecuária ou florestal, o que força uma busca constante por aumento de produtividade.
A despeito de qualquer pedra no sapato de Xi Jinping, atual presidente, o Brasil deve continuar sendo um pilar na segurança alimentar da China. Quanto ao estado gaúcho, preocupa a fenda de produtos com maior valor agregado.
Negócio da China
Sérgio Quadros é economista e, entre 2008 e 2016, foi gerente geral do Banco do Brasil em Xangai, megalópole de mais de 26 milhões de habitantes. Foi ele o responsável pela abertura do banco no país asiático. À frente da SQ Asia Consulting, o especialista defende que já passou da hora de o Brasil diversificar sua pauta: “Além das commodities, há oportunidades para exportar produtos como laticínios e vinhos, especialmente em meio às tensões geopolíticas entre a China e a União Europeia.”
Com a expansão da classe média, os chineses passaram a dar mais atenção a itens importados de maior qualidade. Entretanto, até hoje o Brasil pouco ou nada fez para ser percebido nesse sentido. “Para os chineses, o país ainda se resume a três coisas: futebol, café e Carnaval. Nosso potencial em outras áreas segue desconhecido. Nos supermercados, há vinhos do Uruguai, Chile, Argentina. Mas você não encontra um rótulo brasileiro.”
Para fazer a China prestar atenção, é preciso ir muito além do cartão de visitas: Quadros aponta que é necessário investir tempo e estar sempre de malas prontas. No fim das contas, cada hora investida se paga. Em 2023, as 23 empresas brasileiras que participaram da 6ª China International Import Expo (CIIEO) fecharam um recorde de US$ 271,3 milhões em negócios — mais que o dobro do esperado. Durante o evento, quase 3 mil reuniões aproximaram empresários brasileiros de compradores chineses, consolidando novas parcerias.
Mas não é só o cardápio do Rio Grande do Sul que precisa de uma repaginada. É hora de atrair novos fregueses também. O economista Igor Morais, sócio da Vokin Investimentos, sugere que o estado olhe com mais atenção para a América Latina — especialmente para os países vizinhos, com quem há proximidade geográfica e laços históricos. “A recente estabilização econômica da Argentina pode trazer benefícios para o Rio Grande do Sul nos próximos dois anos”, avalia ele, que é ex-economista-chefe da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs). Além disso, Morais defende que o comércio exterior seja tratado como política de Estado, não de governo, e que o setor privado entre em campo para explorar oportunidades e eliminar barreiras burocráticas. Mas nada disso acontece sem visão e estratégia.
Operação Xangai
Assim como o pioneiro do Banco do Brasil em terras chinesas, o gaúcho Eduardo Ponticelli também escolheu a vida do outro lado do mundo. Chegou a Xangai em 2006. A ideia era mandar produtos de plástico a preços módicos para o Brasil e fazer a roda girar. Naquela época, a mão de obra e a matéria-prima eram tão em conta que quase qualquer produto dava lucro. Com o tempo, a China começou a se sofisticar. Cadeiras, pentes e borrifadores encareceram e perderam mercado. Ponticelli ajustou a rota e passou a intermediar o comércio internacional para fornecedores da Petrobras.
Em função da Operação Lava Jato, iniciada em março de 2014, o negócio afundou com o setor. Eis que o empresário teve, enfim, seu momento “Eureka!”: por que exportar para o Brasil se ele podia produzir para um mercado interno de mais 1,4 bilhão de pessoas? Encontrou um sócio local e registrou sua marca usando parte do próprio sobrenome ao contrário — Illec, que, segundo descobriu no cartório, significa “cume dourado” em mandarim. Com ajuda de parceiros terceirizados, alcançou a produção de mais de 2 toneladas mensais de linguiça de porco, abastecendo restaurantes e supermercados da região metropolitana de Xangai.
De volta ao Brasil desde 2020, quando explodiu a pandemia, Ponticelli aproveita o olho treinado para identificar oportunidades na China a partir daqui. A quantidade de produtos diferenciados, para nichos de mercado, ele explica, não tem fim. “O governo classifica 38 produtos como essenciais para a vida, incluindo diversos derivados da soja.” E há espaço também para itens como o sorgo, principal matéria-prima do baijiu, a “cachaça” chinesa.
Se juntarmos toda a vodca, uísque, rum, gim e tequila consumidas anualmente no mundo, o número não se iguala à montanha que um destilado praticamente desconhecido no Ocidente atinge. Composto de arroz, milhete, trigo, sorgo e outros grãos, a depender da região, a bebida é feita a partir de uma técnica milenar. Foi o trabalho de branding, contudo, que a transformou em símbolo nacional. Para abastecer esse gigante econômico, Pequim compra US$ 3 bilhões de sorgo por ano, sendo 100 mil toneladas só de nosso vizinho Uruguai.
Se souber jogar com as oportunidades, a diversificação da demanda chinesa por produtos de maior valor agregado pode alavancar a balança comercial brasileira e gaúcha. Na visão de Ponticelli, porém, muitos agricultores estão por fora das peculiaridades do mercado chinês. A razão seria um misto de desinteresse e baixa qualificação. “Na última Fenarroz [ocorrida em outubro de 2024 em Cachoeira do Sul], que também é voltada para a soja, dei uma palestra para mais de 300 pessoas. Perguntei: ‘Quem aqui faz faculdade de comércio exterior?’ Apenas uma mão se levantou. As tradings com que me relaciono, as pessoas com quem trabalho, 90% não têm formação acadêmica na área”, diz.
Para piorar, a comunicação entre o pequeno produtor e o consumidor final é praticamente nula. Ao contrário do que se imagina, a maior parte dos sojicultores não está em grandes áreas. Segundo a Embrapa, 81% das propriedades gaúchas têm menos de 50 hectares. “Os produtores estão acostumados a vender para intermediários como Cargill e Bunge e não têm a cultura de buscar contatos diretos no mercado”, explica Ponticelli. Na prática, é o intermediário que acaba determinando os rumos do negócio.
Tato para atravessar o rio
Ponticelli lembra que Xangai possui uma bolsa dedicada à soja, que regula suas operações em sintonia com a famosa bolsa de Chicago. O governo brasileiro e os agricultores do Rio Grande do Sul, ele advoga, deveriam considerar a criação de um escritório na “Nova York da China”. “Com um representante local, seria possível colocar lotes de soja diretamente na bolsa e aproveitar as oportunidades de venda.” Melhor para a competitividade dos produtos brasileiros, melhor para a renda dos agricultores.
Mais uma vez, o Brasil deixa de marcar território no maior mercado do mundo. Neste último meio século, houve a abertura das embaixadas do Brasil em Pequim e da China em Brasília. O Brasil tem consulados-gerais em Xangai, Cantão (Guangdong) e Hong Kong. A China conta com consulados-gerais no Rio de Janeiro, São Paulo e Recife. Há avanços, evidentemente, mas a sensação é de que seria possível fazer bem mais.
Sem razão aparente, o Rio Grande do Sul ainda engatinha em várias oportunidades. A tecnologia é um exemplo: enquanto o Estado desenvolve soluções de software, o setor permanece praticamente inexplorado no mercado chinês. Da mesma forma, o interesse crescente por produtos orgânicos e sustentáveis abre uma janela que os gaúchos ainda não aproveitam. Já o turismo cultural e o intercâmbio acadêmico oferecem canais prontos para o diálogo — mais um potencial que costuma passar batido. Expandir para a China exige mais que um impulso: requer acordos estratégicos, presença local e empresas dispostas a inovar. Com a chegada de tecnologias disruptivas como inteligência artificial e blockchain, o potencial de transformação é imenso. Mas enquanto o estado se agarra à velha pauta, as novas oportunidades ficam à margem — aguardando um olhar renovado e a coragem para, enfim, cruzar a linha de chegada.