Se você costuma comprar roupas pela internet, muito provavelmente já recebeu algo que precisou devolver, seja porque o tamanho não ficou legal, seja porque não era bem aquilo que esperava. Mas você alguma vez parou para pensar no destino da peça rejeitada?
Grande parte das devoluções no e-commerce não volta às prateleiras. A depender de custo logístico, higienização, reembalagem e triagem, muitas mercadorias acabam sendo simplesmente descartadas. Do total de fibras utilizadas na indústria têxtil, estima-se que 87% vão parar em aterros sanitários ou são incineradas, representando um valor perdido de mais de US$ 100 bilhões anuais.
Agora, imagine o tamanho do desperdício se somarmos todos os setores nos quais há mau aproveitamento de insumos. Não são apenas tecidos: são embalagens plásticas, eletroeletrônicos, aparas industriais, sucatas…
Se o prejuízo econômico é grande, o ambiental é ainda maior. Caso não haja mudança nos padrões de produção, consumo e descarte de materiais, a geração de resíduos sólidos deve crescer 80% de 2020 para 2050, segundo o relatório
Global Waste Management Outlook 2024. Isso representa um salto de 2,1 bilhões para 3,8 bilhões de toneladas de lixo. Por ano.
Antes que sua consciência seja consumida por causa daquela roupa devolvida, saiba que, hoje, o mercado já conta com soluções eficazes para evitar esse desperdício todo. Da indústria têxtil ao agronegócio, iniciativas orientadas para a economia circular vêm revolucionando os fluxos produtivos e mostrando que muito do que vemos como lixo é, na verdade, apenas falha de design.
Redesenhando a economia
Quando se fala em economia circular, é comum associá-la a reciclagem. Mas sua proposta é mais abrangente.
Enquanto o modelo linear de produção segue a lógica “extrair, produzir, consumir e descartar”, a economia circular busca manter insumos em uso pelo maior tempo possível. Como? Reduzindo perdas desde a origem, por meio de práticas como reutilização, reparo, remanufatura e reaproveitamento. O ato de reciclar entra apenas no fim do processo, quando não há mais como prolongar a vida útil do material. Por isso, costuma-se dizer que a lógica da circularidade começa no desenho dos projetos — com a criação de roupas fáceis de desmontar, eletrônicos com peças substituíveis ou embalagens pensadas para serem utilizadas novamente.
Em economias mais maduras, essa tendência já começa a estruturar indústrias inteiras. Nos Estados Unidos e na Europa, por exemplo, vem ganhando força o mercado de recommerce e resale — um ecossistema de empresas especializadas em revender estoques excedentes e até lotes inteiros de varejo.
Algumas marcas se tornaram referência ao incorporar a lógica circular. É o caso da Patagonia. Com a filosofia de trabalhar em prol do meio ambiente, a grife norte-americana de roupas esportivas conta desde 2013 com um programa intitulado Worn Wear, que incentiva a tríade reparo-revenda-reúso, prolongando o ciclo de vida das peças em vez de substituí-las por novas.
Já a sueca IKEA vem ampliando programas de recompra de móveis usados, que voltam às lojas para serem vendidos com desconto. Paralelamente, passou a investir em design circular — a ideia é diminuir a dependência de matérias-primas virgens e o volume de descarte gerado pelo consumo doméstico.
Simbiose industrial
Ainda na Europa, um dos exemplos mais famosos de circularidade é o da Kalundborg Symbiosis, na
Dinamarca. Criada em 1972, a rede reúne 17 empresas públicas e privadas, que compartilham fluxos de energia, água e subprodutos. O princípio fundamental é que o resíduo de uma se torna recurso para outra. Isso beneficia tanto o meio ambiente quanto a economia.
O modelo é considerado padrão ouro em economia circular, servindo de inspiração para polos ecológicos em todo o mundo — inclusive no Brasil. Desde 2024, o Rio de Janeiro conta com um projeto pioneiro de simbiose industrial. A iniciativa é promovida pelo governo estadual, em parceria com a Kalundborg, a também dinamarquesa Clean e a brasileira Greenova Hub.
A região escolhida foi o Distrito Industrial de Santa Cruz, porque reúne players de diferentes segmentos relativamente próximos entre si. O projeto ainda está em fase de implantação, mas estudos técnicos já identificaram pelo menos 15 potenciais fluxos simbióticos entre as empresas do distrito. O mais avançado envolve o reaproveitamento de resíduos gerados pela dessulfurização de gases de efeito estufa de uma siderúrgica para fabricação de placas de gesso acartonado.
Há expectativa de impactos ambientais relevantes. Mesmo sem mencionar valores, estudos associados ao projeto apontam a possibilidade de redução de emissões de CO₂, diminuição do descarte industrial e menor dependência de extração mineral.
O que falta para avançar
Se toda a cadeia produtiva funcionasse dessa forma, muitos insumos que hoje são desperdiçados poderiam circular por um bom tempo. Então, por que toda a economia já não é circular? Certamente, não é por falta de potencial.
Segundo um relatório da Ellen MacArthur Foundation — organização criada em 2010 pela ex-velejadora britânica que popularizou o conceito de circularidade no debate global —, a adoção desse modelo geraria uma economia gigantesca. Apenas no setor de bens de consumo de giro rápido, como produtos de limpeza doméstica, a redução de custos com materiais poderia chegar a US$ 700 bilhões.
Um dos problemas de ordem prática está na infraestrutura necessária para garantir escalabilidade. Modelos circulares exigem sistemas de logística reversa estruturados, além de integração entre elos da cadeia que tradicionalmente operam de forma isolada.
Conforme Davi Bomtempo, superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria (CNI), as empresas brasileiras que adotam práticas circulares já percebem retorno financeiro sobre esses investimentos. Porém, quando se pensa em transformação em larga escala, ainda há dependência de políticas públicas e incentivos que ajudem a corrigir distorções do mercado. Um exemplo é a questão tributária. “Muitas vezes, o material reciclado acaba tendo uma carga tributária maior do que a matéria-prima virgem, o que desestimula o reaproveitamento de resíduos”, explica o executivo da CNI.
Outro desafio é a questão cultural. Em alguns casos, a indústria tem dificuldade de engajar fornecedores e parceiros em uma lógica mais colaborativa e sistêmica. Um estudo da própria CNI revelou que até mesmo os consumidores demonstram certa relutância em adquirir produtos de “segunda mão”.
E, claro, tem a questão econômica. “O custo do capital no Brasil ainda é elevado, o que dificulta investimentos em infraestrutura, rastreabilidade e tecnologias necessárias para ampliar modelos circulares, especialmente aqueles cujo retorno acontece no médio e no longo prazo”, afirma Bomtempo. Às dificuldades, o superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI ainda acrescenta a insegurança jurídica gerada pela falta de convergência entre regras.
Atuando desde 2024 em projetos relacionados a estratégias de descarbonização e circularidade na indústria do cimento, a professora Ruane de Magalhães, do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), entende que a economia circular precisa de um olhar mais abrangente da cadeia produtiva. “Isso exige comprometimento. Algo que, na prática, ocorre de forma mais consistente quando há políticas públicas capazes de estimular e sustentar essa transformação”, acredita.
Para ela, a economia circular brasileira tem muito o que avançar, principalmente em áreas que integram a geração de resíduos sólidos urbanos — onde há menor controle de uso e descarte. Por outro lado, setores como a indústria química ou de combustíveis contam com melhores condições para promover a circularidade de seus resíduos. “O que diferencia as iniciativas bem-sucedidas é o engajamento da cadeia produtiva e a integração da circularidade como objetivo do negócio”, diz a professora. “Do contrário, a economia circular vira apenas uma estratégia isolada, distanciada de seus princípios e, dificilmente, será efetiva.”