Há cerca de 78 mil anos, numa caverna chamada Panga ya Saidi, próxima à costa do Quênia, um grupo de Homo sapiens enterrou uma criança de aproximadamente três anos. A descoberta do sepultamento, confirmada por pesquisadores em 2021, ajudou a ampliar a compreensão sobre os primeiros seres humanos. Não era só sobre um ritual funerário: era a revelação de uma sociedade que já sabia atribuir significado às relações. Milhares de anos depois, essa capacidade continua presente. Entre suas manifestações está a habilidade de compreender emoções, administrar sentimentos e construir vínculos saudáveis — o conjunto de competências que hoje chamamos de inteligência emocional.

O poder das emoções

A inteligência emocional ganhou popularidade nas últimas três décadas, sobretudo após a publicação em 1995 do livro homônimo escrito pelo jornalista e psicólogo americano Daniel Goleman. Tanto ele quanto outros psicólogos partem da ideia de que existem diferentes tipos de inteligência. Por exemplo: podemos pensar que o talento para os esportes seja um tipo de inteligência corporal ou de coordenação. Alguém com habilidade natural para cálculos pode ter uma boa inteligência matemática. E assim por diante. A inteligência emocional se caracteriza pela capacidade de reconhecer os próprios sentimentos, lidar com eles e não reagir de maneiras problemáticas. Envolve, ainda, reconhecer os sentimentos que surgem nos outros e, então, ser capaz de interagir com eles, resolver conflitos e conviver em harmonia.

Segundo Goleman, deixar a inteligência emocional de lado é compreender apenas uma fração do potencial humano. “Uma visão da natureza humana que ignore o poder das emoções é lamentavelmente míope”, escreveu, em Inteligência Emocional. Na obra, ele apresenta cinco dimensões centrais da competência: autoconhecimento, autocontrole, motivação, empatia e habilidades sociais.

O impacto do livro foi imenso. E também gerou debate. Parte da comunidade científica ainda questiona se inteligência emocional é, de fato, uma forma de inteligência ou um conjunto de traços de personalidade. Para o mundo corporativo, porém, a distinção teórica importou menos do que os resultados práticos. Líderes e recrutadores passaram a valorizar capacidades relacionadas à empatia, à colaboração e à gestão de conflitos. Conforme o relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, as soft skills (habilidades socioemocionais) estão entre as mais importantes para o futuro do trabalho. O que isso significa? Sem elas, os desafios naturais de uma carreira podem ser ainda maiores.

“A baixa inteligência emocional tem repercussão direta no clima organizacional, afetando as relações interpessoais e o funcionamento das equipes”, afirma Letícia Mameri Trés, médica do trabalho, psiquiatra e colaboradora do Departamento Científico da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT). Na prática, segundo ela, essas dificuldades costumam se materializar em conflitos recorrentes, resistência a feedbacks, impulsividade na comunicação, problemas de adaptação e baixa produtividade. Uma pesquisa realizada em 2024 indicou que quatro em cada dez líderes e liderados admitiram ter deixado de produzir ou se engajar por estarem emocionalmente abalados. O estudo foi feito em parceria entre a escola de treinamento The School of Life e a consultoria de RH Robert Half. Foram entrevistados 774 profissionais de todo o Brasil.

Em escala global, os números revelam a dimensão do desafio. Conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos mentais em todo o globo. Para além do impacto no bem-estar dessas pessoas, há um enorme custo financeiro. Um estudo de 2016 estimou que depressão e ansiedade consomem 12 bilhões de dias úteis produtivos por ano, entre afastamentos, rotatividade e queda de desempenho. Projeções atualizadas sinalizam que o prejuízo é de US$ 1 trilhão à economia global.

No Brasil, os números também chamam atenção. Em 2025, o país bateu, pela segunda vez, o recorde de afastamentos por transtornos mentais em uma década. De acordo com o Ministério da Previdência Social, foram mais de meio milhão de benefícios concedidos: 546,2 mil, crescimento de 15,6% em relação a 2024. O estado com a maior quantidade de benefícios foi São Paulo (149,3 mil), seguido de Minas Gerais (83,3 mil) e, na terceira posição, o Rio Grande do Sul (46,7 mil).

O novo cenário da NR-1

A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), em vigor desde 26 de maio, tornou mais explícita a responsabilidade das empresas pela prevenção de riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Esses fatores devem ser considerados no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Na prática, isso envolve identificar e reduzir problemas como sobrecarga, assédio, falta de autonomia, ausência de apoio das lideranças e falhas na organização do trabalho.

Para Mayra Osório, psicóloga da Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), a NR-1 representa uma evolução importante porque os riscos psicossociais deixam de ser vistos como questões individuais e passam a integrar a responsabilidade da empresa. “O PGR inclui os fatores psicológicos através da identificação e avaliação de riscos psicossociais, bem como a implementação de um plano de ação e monitoramento contínuo”, explica. A questão, diz ela, é que a NR-1 ainda carece de diretrizes que detalhem aspectos específicos, como a medição dos fatores psicossociais e a definição da composição da equipe especializada para realizar o gerenciamento de riscos.

O desafio da liderança

Se o impacto da inteligência emocional pode ser percebido em toda a organização, é na liderança que ele costuma se tornar mais visível. A afirmação é de Marcelo Apovian, consultor de performance executiva e professor que acumula mais de duas décadas atuando em processos de seleção e desenvolvimento de lideranças. Apovian já entrevistou milhares de executivos. E percebeu que grande parte dos desafios profissionais não está relacionada ao conhecimento técnico, mas ao comportamento.

Ele próprio viveu essa experiência na juventude, quando competia internacionalmente no esqui alpino. Apovian foi o primeiro brasileiro a conseguir índice para as Olimpíadas de Inverno. “Eu era o melhor do Brasil e respeitado na América Latina, mas, quando ia para fora, eu era muito ruim. Lá, eu convivia com pessoas que ganhavam medalha de ouro”, recorda. “Era muito intimidador.”

À medida que o tempo passou, porém, a convivência e o aprendizado transformaram o desconforto em gatilho para o desenvolvimento pessoal. “Fui me acostumando, melhorando, fazendo amizade e treinando junto com outros atletas. Deixou de ser um ambiente hostil para ser apenas um ambiente competitivo”, diz Apovian.

O que ele descreve — reconhecer o próprio desconforto, regulá-lo e transformá-lo em aprendizado — é, na prática, o movimento central da inteligência emocional. Para Apovian, essa habilidade costuma ser construída justamente nos momentos de adversidade. “É no problema que a gente trabalha a inteligência emocional, não quando está tudo bem.” O ex-atleta alerta que, hoje, o desequilíbrio nas relações trabalhistas pode começar justamente entre as lideranças. “Não tenho a menor dúvida de que, embora haja também excessos por parte de liderados, o maior problema são os maus chefes.”

Ao longo da história, o trabalho mudou. As ferramentas mudaram. As tecnologias também. Mas aquele gesto de 78 mil anos atrás — enterrar uma criança com cuidado, atribuir significado a uma perda — diz algo sobre quem somos. E que nenhuma transformação apagou. Talvez essa capacidade de equilibrar razão e emoção, de reconhecer o outro como alguém que importa, explique por que, milênios depois, seguimos buscando não apenas produzir mais, mas também conviver melhor uns com os outros.

COMO TREINAR SUA INTELIGÊNCIA EMOCIONAL