Existem duas modalidades de revezamento amplamente conhecidas: 4x100m e 4x400m. Na primeira, a passagem do bastão acontece praticamente às cegas, com o atleta receptor acelerando sem olhar para trás. A segunda também exige agilidade, mas o ritmo é outro: o corredor à frente consegue visualizar a aproximação do companheiro antes da troca.

No mundo corporativo, a passagem de bastão não segue um padrão tão definido como nas pistas de atletismo. Mas, assim como em uma prova de revezamento, o processo de sucessão familiar exige preparo e confiança mútua entre quem sai de cena e quem assume o comando. A diferença é que, nesse caso, um bastão mal passado pode comprometer o legado da empresa — e até a continuidade do negócio.

O gargalo da sucessão

Empresas familiares têm papel central na economia brasileira. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que elas respondem por cerca de 90% dos negócios, além de gerar 75% dos empregos formais e dois terços do Produto Interno Bruto (PIB). No entanto, poucas conseguem sobreviver ao processo de sucessão. Segundo o Banco Mundial, apenas 30% dessas organizações chegam à segunda geração, proporção que cai para 12% na terceira e para menos de 3% na quarta. Em paralelo, uma pesquisa global da PwC realizada em 2023 revelou que somente 24% contam com um plano sucessório estruturado e documentado.

Os dados mostram como a sucessão ainda é tratada como algo eventual. A consequência? Muitas empresas deixam de adotar práticas essenciais à transição. Estudos da International Finance Corporation (IFC) indicam que companhias com governança frágil enfrentam maior custo de capital e menor acesso a financiamentos. Um dos caminhos para minimizar riscos é recorrer a profissionais capazes de ir além das relações pessoais e identificar, com distanciamento, os pontos críticos.

Pequenos equívocos, grandes consequências

Executivo há mais de 30 anos, Luís Antônio Oselame dedicou a última década à consultoria em relações entre empresa, família e sociedade. Sua função é estruturar a sucessão por meio de instrumentos que formalizam as relações societárias, como o acordo de sócios e o protocolo familiar. Segundo ele, o principal equívoco cometido pelas empresas é acreditar que os modelos que as levaram ao sucesso continuarão funcionando no futuro. “Em geral, os fundadores não se dão conta da necessidade de formalizar os processos de gestão e de oferecer uma oportunidade para que os gestores — e sucessores — possam atuar. Assim, acabam se concentrando na ideia de que tudo que aprenderam é passado de pai para filho”, explica.

Marcelo Geyer Ehlers é sócio do Instituto Sucessor e da Ineo, consultoria especializada em single family offices, estruturas de apoio a famílias empresárias e investidoras. Ele explica que o erro de não estruturar a sucessão invariavelmente é acompanhado de outro: a centralização do poder. Não são poucos os casos de fundadores que costumam acumular funções e gerir a empresa de maneira informal. Com o crescimento do grupo familiar, e do número de sócios, um processo decisório sem governança deixa de ser sustentável no longo prazo. “Confusões como misturar salário, dividendo e ajuda de custo, tratar um cargo executivo como herança ou tomar decisões estratégicas sem compartilhar com sócios e familiares colocam em risco tanto a relação societária quanto a familiar”, afirma.

Muitas famílias veem o processo sucessório como um tabu. E é fácil entender o porquê: a sucessão mexe com aspectos sensíveis, como transferência de riqueza, conflito de interesses e a aceitação de que todo ciclo tem seu fim — inclusive o da vida. Em publicação de 2020 sobre sucessão em empresas familiares, o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) destaca que os responsáveis pela condução do processo costumam se concentrar na capacidade técnica do sucessor e questões de natureza tributária e fiscal. Uma postura necessária, mas que não resolve os problemas de caráter socioemocional.

“Empresas familiares unem dois universos à primeira vista antagônicos: o mundo dos negócios, guiado, em tese, pelo pragmatismo e pela racionalidade na tomada das decisões, e o mundo da família, regido por laços emocionais”, diz o texto do IBGC. “Não raro, situações vividas em uma empresa familiar podem levar a um choque entre esses dois mundos.”

O documento aborda a sucessão em três dimensões: liderança da família, exercício da propriedade e gestão dos negócios. Essas dimensões podem ou não se dar de forma simultânea. Em alguns casos, a transição acontece de maneira gradual, inclusive dentro de uma mesma geração, e envolve a participação de membros externos. Ainda assim, é impossível ignorar que cada decisão pode ser objeto de conflito, por conta de diferentes aspirações e formas de enxergar o futuro da empresa.

Em artigo no livro The Handbook of Board Governance (2016), organizado por Richard Leblanc, o consultor americano Mark B. Nadler resume o dilema: “Não importa o quanto você tente esterilizar a sucessão e transformá-la em algo altamente planejado, facilmente replicável, baseado na ciência da avaliação de talentos. Ela continua sendo um esforço essencialmente humano — muitas vezes confuso, complexo na essência, sempre específico a cada situação.”

Preservando valor

Uma pesquisa global da McKinsey & Company, realizada com mais de 200 empresas, aponta que transições para executivos de fora da família tendem a apresentar maior taxa de sucesso: em 39% dos casos, há criação de valor, ante 29% nas sucessões conduzidas por parentes. Por outro lado, quando a transferência de comando para um membro da família funciona, o retorno aos acionistas costuma ser superior — o crescimento médio é de 23%, contra 14% nas transições para executivos externos. Ou seja, a sucessão familiar implica maiores riscos, mas tem um potencial mais elevado de geração de riqueza. O desafio é estruturar o processo sem comprometer o valor construído ao longo da trajetória da empresa.

Marcelo Ehlers, que também é coautor do livro A Família Investidora e o Family Office (2017) e da pesquisa Family Office Report Brasil, diz que isso depende de alguns fatores. E elenca três: consciência estratégica, governança ampla e preparação da nova geração. O primeiro fator envolve alinhar expectativas e compreender o momento do negócio. É observar as transformações do mercado em que a empresa está inserida e, a partir daí, definir aspectos como modelo de gestão e perfil de liderança. Quando fala em governança ampla, o consultor se refere a um modelo que contemple família, corporação e patrimônio. “Nesse contexto, o family office tem um papel-chave: profissionalizar a relação da família com a empresa, fomentar o desenvolvimento dos familiares e gerir o patrimônio de forma a oferecer opções, segurança e estabilidade”, explica. Por fim, observa Ehlers, a preparação dos herdeiros precisa ser um “dever de casa” bem-feito desde a infância. A convivência com sucessores íntegros, alinhados aos valores da família e da empresa, ajuda a reduzir atritos e dar fluidez ao processo.

Para Luís Antônio Oselame, o primeiro passo para garantir a efetividade da sucessão é compreender que “somos todos finitos”. “Empresários que conseguem trazer essa visão para o centro da discussão geram oportunidades para que as pessoas contribuam e entendam a visão e o propósito da companhia, facilitando a manutenção do legado e o futuro dela”, acredita.

O fato é que todo negócio, familiar ou não, vive de resultados e precisa estar em constante atualização. “Empresas que mostram a diferença entre a remuneração do capital e do trabalho para sua gestão, seus colaboradores e, principalmente, para os seus sucessores, certamente farão uma sucessão adicionando valor ao processo”, garante Oselame.

É possível que o processo de sucessão familiar se aproxime menos da técnica de uma prova de revezamento e mais de seu princípio básico: a corrida não termina na passagem do bastão. O grande desafio é garantir que o próximo corredor assuma o posto em condições de manter um alto nível de desempenho.

7 LIÇÕES PARA A SUCESSÃO NÃO SE TRANSFORMAR EM CRISE

  1. Começar cedo
    A maioria das empresas familiares não tem um plano formal de sucessão — e, quando existe, costuma ser tardio. “Contar com o sucedido em plenas condições de saúde e energia faz toda a diferença. Há também o momento do sucessor: se ele estiver pronto, mas não encontrar espaço, pode se desmotivar e buscar outro desafio”, argumenta Marcelo Ehlers, do Instituto Sucessor. O consultor Luís Antônio Oselame completa: mesmo que o fundador seja jovem, é preciso pensar na continuidade da organização. “As pessoas não morrem só por velhice. Elas morrem por acidente e por um monte de outras causas.”
  2. Herdeiro não é cargo
    Pertencer à família não substitui qualificação técnica. “O herdeiro traz a cultura, a continuidade, a história, a tradição da família. No entanto, é fundamental que tenha reconhecida experiência e capacidade para exercer funções de alto escalão”, aponta Ehlers. Ele lembra ainda que alguns herdeiros não têm interesse pela operação, mas podem se tornar excelentes acionistas.
  3. Família controladora precisa de fórum próprio
    A ausência de espaços formais de diálogo, como conselhos de família, favorece conflitos. Estruturas dedicadas ajudam a separar temas emocionais das decisões empresariais.
  4. Conselho não pode ser decoração
    Conselhos de administração ativos e independentes estão ligados a melhores resultados e maior longevidade. A governança fortalece práticas como transparência, conversas organizadas no momento e no fórum adequados, prestação de contas, critérios claros de tomada de decisão e limites de alçada definidos.
  5. CEO da família não é regra
    Nem toda empresa precisa de um líder familiar. A escolha do CEO deve considerar competência e o momento do negócio. “Nos meus anos de experiência, nunca vi um pai demitir um filho”, afirma Oselame. “Devo admitir que um familiar pode assumir a função no curto e médio prazo, até que a cultura interna esteja preparada para aceitar um profissional externo. Mas, como regra, não recomendaria.”
  6. Patrimônio e operação precisam de regras distintas
    Misturar decisões sobre empresa e patrimônio pessoal aumenta o risco de conflito. É melhor separar claramente governança societária, gestão operacional e gestão patrimonial.
  7. A próxima geração precisa ser preparada para criar valor
    Sem preparo, a transição pode fragilizar o negócio, mesmo quando há boa intenção do possível sucessor. “O dia a dia traz armadilhas e convites constantes à confusão de papéis. Para ser legitimado pela equipe, o herdeiro deve ter competência técnica e relacional acima da média”, diz Ehlers.