Em 2023, o grupo das 20 maiores economias do planeta, o G20, se reuniu em Nova Délhi, na Índia, para debater a promoção do desenvolvimento sustentável. Um empreendimento a mais de 14 mil quilômetros de distância esteve nos holofotes do evento. O IDEA Bagé, um condomínio localizado em Porto Alegre, foi apresentado entre os 100 projetos mais sustentáveis do mundo. O reconhecimento veio por conta das inovações aplicadas em sua construção e operação, tidas como benchmark para uma transformação global rumo às edificações sustentáveis e comprometidas na luta contra as mudanças climáticas.

“Ele incorpora soluções de ponta alinhadas aos pilares da sustentabilidade a partir de energia limpa, painéis fotovoltaicos e aquecimento solar”, explica Mauren Neutzling, fundadora da MON Arquitetura, escritório responsável pela consultoria de sustentabilidade do edifício. São 120 metros quadrados de painéis fotovoltaicos que geram até três vezes mais energia do que o necessário para abastecer as áreas condominiais – o que sobra é destinado aos apartamentos, barateando as contas de luz dos moradores e desafogando a rede pública. Já o sistema central de aquecimento de água a partir da energia solar reduz o consumo de gás em mais de 80%.

Antes de aparecer na vitrine global, o IDEA Bagé foi o primeiro edifício residencial do Brasil a receber a certificação nível platina do Green Building Council (GBC) – o mais alto do sistema. O GBC é uma entidade sem fins lucrativos que visa acelerar a transformação da indústria da construção civil em direção à sustentabilidade. O empreendimento, desenvolvido pela incorporadora Capitânia, também foi o primeiro a obter a certificação de sustentabilidade ambiental da prefeitura de Porto Alegre na categoria máxima, a diamante. A certificação dá descontos no IPTU e abre a possibilidade de incentivos urbanísticos, como o acréscimo de altura.

Os benefícios trazidos pelas certificações são um impulso para a adoção de boas práticas no mercado. “As empresas enxergam a sustentabilidade como uma porta de entrada para novas tecnologias, aumentando a competitividade e a evolução da indústria”, afirma Enzo Tessitore, diretor de Marketing e Operações do GBC Brasil. Segundo ele, a busca por reconhecimento reflete a evolução da construção sustentável ao redor do mundo. O Brasil é o quinto país com mais solicitações de certificação (cerca de 2,5 mil) – um patamar considerado satisfatório, mas distante dos mais de 100 mil projetos dos Estados Unidos, onde as certificações são requisito para obras federais.

As boas práticas da construção sustentável incluem pelo menos quatro eixos: eficiência energética e hídrica, qualidade do ar, conforto térmico-acústico e iluminação. O IDEA Bagé, por exemplo, conta com sensores inteligentes que medem instantaneamente os consumos de água, energia e gás, controlando o consumo. As descargas dos vasos sanitários, torneiras e chuveiros ecológicos instalados nos apartamentos reduzem em até 60% o consumo de água. Na fachada, as sacadas e os brises móveis foram pensados para melhorar o aproveitamento da luz e o conforto térmico, economizando até 40% da energia com aparelhos de ar-condicionado. Todas as esquadrias da área social dos apartamentos têm vidros que bloqueiam até 99% dos raios ultravioleta e reduzem em até 50% o calor.

Esse tipo de escolha alivia o bolso e influencia no bem-estar dos moradores. Algumas estimativas apontam que as pessoas passam 90% de suas vidas dentro de edifícios. Não por acaso, distúrbios de saúde estão associados a ambientes frios, úmidos, escuros e mal ventilados. Viver em um lar pouco iluminado pode provocar dores de cabeça recorrentes, insônia e depressão. A exposição a níveis elevados de poluição sonora causa estresse, hipertensão e acidentes vasculares cerebrais. Já o frio e a umidade, que formam um terreno fértil para o mofo, agravam doenças respiratórias, como a asma. Esse combo de sintomas e doenças foi reconhecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como Síndrome do Edifício Doente (SED). O SED inclui a poluição do ar interno dos cômodos por compostos orgânicos voláteis (os COVs), substâncias químicas contaminantes que podem se transformar em vapor mesmo em temperatura ambiente e que estão presentes em materiais utilizados em acabamentos, como tintas.

Na verdade, a sustentabilidade começa pelo desenvolvimento de propostas centradas no usuário. “Se a gente conseguir que as pessoas vivam melhor, durmam melhor e consumam menos energia, acabamos criando um ciclo com impactos positivos a longo prazo”, afirma Alexandre Prass, sócio-fundador do naE Arquitetura. Nesse sentido, não bastam novas tecnologias e produtos industrializados. Para Prass, o mais importante é que os projetos observem o contexto do local da obra – materiais, técnicas e mão de obra disponíveis, por exemplo. “Dessa forma, em termos de resiliência, a arquitetura tem dois papéis: contribuir para evitar que a mudança climática se agrave e garantir o bem-estar das pessoas no dia a dia, mesmo frente às mudanças que estão acontecendo”, completa.

Isso inclui a escolha do mobiliário e o desenvolvimento de ações com impacto social – um dos pilares da sustentabilidade. A cama Kerecha, desenvolvida pelo naE, por exemplo, venceu prêmios nacionais e internacionais, como o Design for a Better World Award, que celebra soluções que estimulam um futuro mais inclusivo, sustentável e socialmente justo. A Kerecha, que significa “sonho” em Guarani, foi projetada para atender famílias afetadas pelas enchentes do Rio Grande do Sul. A partir de uma única chapa de compensado naval, é possível produzir uma cama de casal ou duas de solteiro com estrutura leve, robusta e resistente à umidade. O design inovador da peça permite a produção em larga escala e com custos reduzidos.

Pela descarbonização

Edifícios e construções são responsáveis por cerca de 35% do uso global de energia e por 40% das emissões de carbono relacionadas à energia. Para mitigar esses percentuais, em 2023, o setor investiu US$ 285 bilhões em iniciativas de descarbonização, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). A certificação ambiental mais procurada no mundo, a LEED, está concentrada na redução do carbono incorporado e das emissões de gases do efeito estufa associadas a extração, fabricação, transporte, instalação e descarte de materiais da construção civil.

No Brasil, uma pesquisa do Instituto Ethos revela que 74% das empresas de construção reconhecem a necessidade de integrar soluções sustentáveis e resilientes para manter a competitividade e relevância no mercado. A Mon Faro, incorporadora de Bento Gonçalves (RS), percebeu essa necessidade já em 2018. Desde então, a escolha dos materiais é parte fundamental da sua estratégia de sustentabilidade. Pelo menos 20% da matéria-prima utilizada tem uma cadeia de custódia – da produção à entrega na obra – em um raio de no máximo 500 quilômetros. Além da proximidade regional, são levados em conta critérios como baixa emissão, durabilidade e certificações. Todos os materiais são de madeira nativa legalizada, boa parte com certificação da Forest Stewardship Council (FSC). “Assim, temos uma menor pegada de carbono já nas fases de produção e logística dos materiais”, explica William Zandonai, coordenador técnico de Sustentabilidade e Controle de Qualidade de Obras da Mon Faro.

Segundo Tessitore, do GBC Brasil, cada vez mais, as fornecedoras de insumos para a construção civil fazem análises do ciclo de vida e do impacto ambiental dos seus produtos. Tudo é informado em fichas de transparência – que funcionam como os avisos de alta taxa de açúcar ou sódio presentes em embalagens de alimentos. “A composição de materiais e a transparência a respeito das suas composições evoluíram muito nos últimos anos e vão gerar mais ganhos daqui para frente”, projeta Tessitore.

De olho no futuro, a Mon Faro prepara o terreno para o Jardins Dona Isabel, um empreendimento com mais de 133 mil metros quadrados de área construída. Serão cinco torres com tipologia variada, sendo quatro delas residenciais de alto padrão certificadas pelo GBC Brasil Condomínio e uma torre comercial com certificação LEED. Ainda no canteiro de obras, serão instalados pontos de coleta que conduzirão a água da chuva para cisternas subterrâneas – prática que a Mon Faro adota em todos os seus empreendimentos. A água é utilizada ao longo da construção e, posteriormente, na operação dos edifícios para a limpeza de garagens e áreas comuns, sistemas de rega e paisagismo.

O paisagismo, inclusive, vai muito além da decoração: melhora o bem-estar dos moradores ao mesmo tempo que auxilia na manutenção do conforto térmico e no escoamento da água, evitando a formação de ilhas de calor e alagamentos. No Jardins Dona Isabel, as áreas naturais ocuparão mais de 2 mil metros quadrados, com espécies nativas de todos os portes. As torres terão fachadas circulares com floreiras e recuos para que todos os ambientes tenham sacadas. Os terraços serão áreas de uso comum com telhados verdes e elementos naturais.

A industrialização do setor é outro caminho para obras mais sustentáveis. Isso é o que defende Roberto Sukster, vice-presidente do Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS). Ele destaca que a inserção de componentes pré-fabricados, de construção modular (off-site), entre outras tecnologias, reduzem o tempo de obra e o desperdício de materiais. Além disso, melhoram as condições de trabalho. “A industrialização diminui o desperdício, pois boa parte dos resíduos das obras vem do uso de materiais artesanais. E uma obra mais limpa também é mais atrativa para os trabalhadores”, explica. A Comissão de Materiais, Tecnologia, Qualidade, Produtividade e Sustentabilidade do Sinduscon-RS, da qual Sukster é coordenador, realiza fóruns com a presença de fornecedores para incentivar a inovação. “Buscamos mais desempenho, durabilidade e atendimento a requisitos ambientais nos materiais, o que também significa menos resíduo ao longo da vida útil do empreendimento.”

Visão de longo prazo

Segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), o aumento da temperatura média global vai intensificar a ocorrência de eventos extremos – como as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024. Por isso, enquanto encaram o desafio da descarbonização, as construções sustentáveis buscam modos de se adaptar e se recuperar de situações adversas causadas por chuvas, ondas de calor e vendavais. Um prédio resiliente oferece conforto térmico, qualidade do ar e segurança mesmo em cenários de pressão ambiental.

A resiliência depende do aproveitamento da ventilação e da iluminação natural, de sistemas de captação e reuso da água e da aplicação de fontes de energia renováveis. Além disso, o emprego de materiais duráveis e adaptáveis a diferentes condições climáticas e o paisagismo funcional são fatores-chave. Um edifício com certificação sustentável passa por uma série de simulações ainda na fase de projeto. Mais do que minimizar o impacto de tragédias climáticas e garantir o bem-estar dos moradores, essas estratégias valorizam os imóveis.

Um estudo do World Resources Institute (WRI) aponta que, para cada dólar investido em resiliência predial, há um retorno de até US$ 4 com a redução de danos, interrupções operacionais e custos de manutenção. Já o relatório Adapt Now, da Global Commission on Adaptation, calcula que edificações adaptadas para mudanças climáticas podem reduzir em até 50% os riscos de perdas patrimoniais e prejuízos financeiros causados por desastres naturais. Ao longo de 50 anos, por exemplo, o projeto e a construção passam a responder por apenas 15% do custo de um edifício – o restante é custo de operação. “Qualquer custo adicional com boas práticas de sustentabilidade na construção se paga com ganhos de eficiência ao longo do ciclo de vida do edifício”, diz Tessitore. Os engenheiros responsáveis pelo IDEA Bagé estimam uma economia de mais de R$ 8 milhões para o condomínio ao longo da vida útil do prédio.

Na hora de vender ou alugar, o proprietário também sai ganhando. Um estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV), realizado com edifícios corporativos em São Paulo, indica que as certificações aumentam o valor do metro quadrado, retêm melhores clientes e diminuem a vacância entre inquilinos. Para se ter ideia, edifícios com selo LEED têm um preço médio de venda 21,4% superior aos não certificados, e taxas de aluguel 11% mais altas.

Países com crescimento exponencial das construções sustentáveis o fizeram com financiamentos vantajosos para edifícios certificados, códigos de obras robustos e políticas públicas voltadas ao setor. A Nova Zelândia, por exemplo, criou o Building for Climate Change, um programa de governo que visa reduzir a emissão de gases do efeito estufa e aumentar a resiliência do segmento aos impactos das mudanças climáticas. Na Europa, uma das referências é a Alemanha, que conta com financiamentos e subsídios por parte do governo para construções verdes e renovação de edifícios antigos. Já o Brasil ainda depende de ações isoladas em termos de políticas públicas, como a certificação municipal de Porto Alegre e o IPTU Verde, de Salvador (BA).

“Temos que entender que a construção sustentável é um processo de longo prazo que transforma a paisagem urbana e qualifica os empreendimentos, com ganhos reais para toda a cidade: moradores, incorporadoras, meio ambiente e poder público. Todos saem ganhando quando se constrói com responsabilidade”, acrescenta Mauren Neutzling, da MON Arquitetura.