A força do franchising vai além da multiplicação de logotipos pelas ruas e shoppings do Brasil. Cada franquia carrega um modelo de negócio que já enfrentou crises, mudanças de governo e até uma pandemia.

Os números confirmam o cenário de expansão: segundo a Associação Brasileira de Franchising (ABF), o faturamento do setor foi de R$ 135,8 bilhões no primeiro semestre de 2025. Uma década atrás, esse era quase todo o faturamento anual: em 2015 foram R$ 139,6 bilhões.

Confundador da Rockfeller Language Center e diretor da Regional Sul da ABF, André Belz diz que a resiliência vem da combinação de risco menor, suporte e credibilidade. Se antes o atrativo era a padronização, hoje o franchising equilibra tradição e inovação absorvendo novos formatos, demandas digitais e o impacto crescente da inteligência artificial (IA). Estes e outros temas são abordados na entrevista a seguir.

O setor de franquias tem uma trajetória consistente de crescimento. O que explica o sucesso e a resiliência, mesmo em cenários adversos?
As franquias oferecem ao empreendedor um modelo já testado, com suporte contínuo e força de marca. Isso reduz riscos e dá mais segurança tanto para o franqueado quanto para o consumidor, além de atrair cada vez mais interessados, seja franqueando sua marca ou abrindo uma operação de franquia.

Dentre os segmentos que mais crescem, quais são os mais fortes para os próximos anos?
Alimentação, Saúde e Beleza & Bem-Estar continuam sendo os mais consistentes. Com base na ABF Franchising Expo [feira de franquias realizada anualmente em São Paulo], um importante termômetro do setor, destaco ainda as franquias de mercados autônomos, locações, soluções financeiras e de gestão, óticas – com propostas variadas, incluindo populares – e serviços de limpeza.

Hoje são mais de 200 mil operações. Ainda existe espaço para crescer?
O setor é bastante concentrado nos grandes estados, nas capitais e localidades de maior população. Então, sim, há muito espaço para crescer, tanto pelas dimensões do País quanto pelo fato de o franchising ser uma indústria horizontal, que inclui diferentes segmentos da economia. Sem falar nos novos formatos, que têm levado o setor cada vez mais longe. É o caso das microfranquias, cujo teto de investimento é mais baixo: R$ 135 mil. Isso democratiza o acesso ao empreendedorismo. Também há modelos de operação mais enxutos, como quiosques, formatos móveis, digitais e autônomos, incluindo vending machines.

Como equilibrar a padronização, abrindo espaço à inovação e às sugestões dos franqueados?
A padronização é importante porque agrega qualidade e consistência em todos os processos, garantindo que o cliente não sinta diferença em produtos e serviços de diferentes operações. No entanto, o franchising preconiza que haja uma troca constante entre franqueado e franqueadora. Isso abre espaço para que os franqueados possam fazer sugestões à marca. E nada impede que elas sejam implantadas na rede. O importante é manter o diálogo aberto.

Como a transformação digital tem mudado a gestão e a experiência do consumidor nas franquias?
Um estudo da ABF de 2024 apontou que 38% das redes se encontram no estágio de transformação digital “centrado no usuário e processos elaborados”, mas poucas redes chegaram ao patamar de negócios orientados a dados. A inteligência artificial, por sua vez, pode ser uma ferramenta poderosa para melhorar a eficiência operacional e a satisfação do cliente nas franquias, ajudando a impulsionar o crescimento e o sucesso do negócio.

De que maneira a IA pode ser explorada pelo setor?
Existem várias. Entre elas a análise de grandes volumes de dados de vendas, operações e feedback dos clientes – para identificar tendências e insights que ajudam na tomada de decisões estratégicas. Tem os chatbots, que podem ser usados para melhorar o atendimento ao cliente. Outra maneira é fazendo recomendações personalizadas de produtos ou serviços com base no histórico de compras e preferências do cliente – o que aumenta as vendas cruzadas e a fidelidade. Além disso, a IA permite a previsão de demandas e dar eficiência aos níveis de estoque. Na logística, pode otimizar as rotas de entrega. A IA também pode prever a manutenção de equipamentos, reduzindo o tempo de inatividade não programada. Na gestão de pessoas, pode apoiar a triagem de candidatos, agendamento de funcionários e avaliação de desempenho. Enfim, pode impulsionar a operação em muitos aspectos.

O franchising é visto como modelo de menor risco, mas quais são os erros mais comuns?
Do lado do franqueador, há alguns erros principais que podem aumentar os riscos. É o caso de expandir sem que a estrutura da empresa esteja consolidada e sem que haja um plano bem traçado. Além disso, a falta de suporte, treinamentos inadequados e comunicação ineficiente podem gerar problemas no relacionamento. Em relação aos franqueados, muitas vezes os problemas consistem em não seguir os processos definidos pela rede, além da ineficiência da gestão financeira e da baixa reserva de recursos.

Do ponto de vista jurídico, quais são os principais desafios regulatórios do setor?
O franchising brasileiro tem uma lei moderna e clara, mas os desafios regulatórios permanecem. A começar pela reforma tributária: precisamos de segurança no tratamento de taxas e royalties, sem risco de uma bitributação que desestimule o crescimento das redes. Outro eixo é a questão trabalhista. É fundamental que o Judiciário continue reconhecendo a independência do franqueado, sem confundir franquia com terceirização ou pejotização. Também temos desafios ligados à proteção de marcas e propriedade intelectual, especialmente diante do crescimento digital e de ex-franqueados que se aproveitam da notoriedade da rede. Soma-se a isso a necessidade de maior robustez em compliance e governança, incluindo LGPD e práticas ESG, realidade em mercados mais maduros. No fim, cada segmento — saúde, educação, financeiro etc. — traz suas próprias exigências, e as redes precisam estar preparadas.