Madri, 7 de junho de 2025. De microfone em punho, Giane Guerra grava o programa Seu Dinheiro Vale Mais, que vai ao ar em GZH. Discorre sobre os atrativos que fazem da Espanha um dos destinos mais populares da Europa. Além de mencionar Barcelona e Madri – onde cobre o South Summit –, a jornalista destaca a região Sul do país. Em especial, a Andaluzia: “Para quem gosta de flamenco, de história, passear de carro pelos Pueblos Blancos é uma ótima pedida”, afirma, com autoridade de quem conhece os charmosos vilarejos de serra repletos de casas caiadas.
Apesar de curto, o vídeo guarda camadas de uma personalidade multifacetada – por vezes, surpreendente. Referência em jornalismo econômico no Rio Grande do Sul, Giane Heidrich Guerra, 44 anos, é conhecida pela onipresença nos veículos do Grupo RBS. Está nas rádios Gaúcha e 102.3, na RBS TV, em Zero Hora e em GZH. Só no Instagram, tem mais de 100 mil seguidores.
Forjada no rádio, Giane ostenta habilidade ímpar para informar com clareza e objetividade em qualquer mídia, desconstruindo a austeridade do “economês”. Em apenas dois minutos de programa, conseguiu inserir com naturalidade uma de suas maiores paixões: o flamenco, dança à qual se dedicou por mais de uma década e cuja cultura influenciou sua formação como mulher.
Na capital espanhola, Giane praticamente só trabalhou, como é praxe nas viagens internacionais que costuma fazer como enviada especial pela RBS. “Eu vou bem focada, mas às vezes faço uma coisa ou outra, meio que vou na onda do grupo. Fora que eu gosto mesmo é de ‘turistar’ com a minha família”, explica. Ainda assim, encontrou uma brecha para jantar com Daniel Giussani, ex-colega de RBS e hoje repórter na revista Exame, e assistir a um espetáculo flamenco no Corral de la Morería – inaugurada em 1956, a casa foi apontada pelo The New York Times como um dos “1.000 lugares para ver antes de morrer”.
CEP de natureza
Turismo em família é algo sagrado para Giane. Pelo menos duas vezes ao ano, ela e o marido, o também jornalista da RBS Jocimar Farina, viajam com os filhos, Atena, 12 anos, e Gael, 10. As férias mais recentes foram na Bahia.
“Eu sempre tento lugares diferentes. Quando as crianças eram pequeninhas, íamos pelo mais fácil. Conforme foram crescendo, retomamos os destinos mais aventureiros”, diz Giane. A curtição baiana teve desde pernoites numa pousada histórica no Pelourinho até o isolamento numa ilha deserta, passando por Morro de São Paulo e a tietagem ao Balé Folclórico da Bahia – atração “imperdível”, segundo ela.
A natureza e a aventura estão no DNA dos Guerra Farina. “A gente gosta muito de fazer trilha no mato. Claro, sempre cuidando da segurança”, pontua. Entre as incursões recentes, estão viagens de carro a cidades do Mato Grosso, a Bonito (MS) e a Foz do Iguaçu (PR), onde praticaram canoagem e tomaram banho nas Cataratas. Em 2024, foi a vez de Cambará do Sul, com direito a passeio de quadriciclo e descida dos cânions em direção a Praia Grande (SC). Outros destinos marcantes foram Goiás Velho e a Chapada dos Veadeiros, rica em trilhas de cachoeiras. “Meu filho fez 12 quilômetros de trilha em Serra Grande. Ganhou bota e foi promovido a trilheiro”, brinca Giane. No local, a família ainda fez cerimônias de reiki e cacau: “A gente curte atividades mais espiritualizadas”.

O apego à natureza começa por casa, literalmente. Meses antes da pandemia, em 2020, Giane e Jocimar compraram uma propriedade em Águas Claras, zona rural de Viamão, ao lado de Porto Alegre. “Eu queria que as crianças tivessem essa vivência de casa, de sair por uma porta, correr no pátio e entrar por outra. Queria que eles tivessem um CEP de natureza”, destaca, lembrando que o terreno é lindeiro de uma área de preservação. “Parece que é tudo meu. Meu vizinho é o mato, com vista para o Morro Grande.”
O endereço foi escolhido estrategicamente para facilitar a rotina da família na capital: a ida ao trabalho, o acesso à escola dos filhos e a vida no apartamento do casal, no Jardim Botânico. “Passo o dia na Ipiranga”, sorri a jornalista, referindo-se à avenida que perpassa todos esses lugares. Mesmo que não more em Águas Claras, a família bate ponto no local toda semana – e, de acordo com ela, só não muda em definitivo porque os horários não permitem, ainda.
Influência de berço
A vontade de morar numa casa não deixa de ser reminiscência da infância e adolescência vividas em uma então pacata Gravataí, na região metropolitana. Nascida em Porto Alegre, aos quatro anos Giane mudou-se para o município vizinho. Ia a pé ao Colégio Dom Feliciano, de onde muitas vezes saía direto para o trabalho dos pais, funcionários do Banco do Brasil, cuja agência ficava a poucos metros. “Eu ficava lá, brincando com clipes e borrachinhas de dinheiro, ou então com os polígrafos de assinatura”, lembra. A mãe, Guiomar, trabalhou tanto no caixa como no reconhecimento de assinaturas. Já o pai, Herondino, dedicava-se ao setor de câmbio.
Sempre curiosa, Giane cresceu habituada ao jornalismo. Sobretudo o noticiário econômico, acompanhado com atenção pelos pais, que ligavam a TV nos principais telejornais e assinavam revistas como Veja e IstoÉ. “Era a época dos grandes planos econômicos, no fim dos anos 80 e início dos 90. Os dois eram grandes consumidores de notícias. Eu lia, não entendia muito, mas alguma coisa acabava absorvendo.”
Dona Guiomar e seu Herondino primavam pela educação financeira, valor repassado a Giane e ao irmão, Renan, quatro anos mais novo. “Ter conta bancária, trabalhar, investir e controlar gastos sempre foram coisas naturais para mim. Não foi algo que aprendi porque virei jornalista, mas que me levou para o jornalismo econômico”, avalia.
Ou seja, Giane não cresceu com o ideal de ser jornalista. Ótima aluna nas ciências exatas, escolheu uma formação em Química no Segundo Grau, atual Ensino Médio. A opção era tida como a mais forte da escola, já que preparava técnicos para as indústrias do polo químico de Gravataí. O sonho, entretanto, era fazer faculdade de Arqueologia. Mas o plano foi deixado de lado quando a menina que gostava de escrever e ouvir rádio – “eu adorava a Ipanema FM” – se rendeu ao Jornalismo da PUCRS.
“Nunca achei que teria uma profissão, apenas. Minha ideia sempre foi cruzar áreas.” Uma inquietude que é marca registrada de Giane. Ainda na faculdade, fez vestibular para Geologia, mas não levou adiante. Depois do Jornalismo, formou-se em Direito e estudou alguns semestres de Economia, ambos na PUCRS. Sem falar nas pós-graduações e cursos livres, incluindo experiências nos Estados Unidos e na Inglaterra.
A desistência da Geologia, vale dizer, só aconteceu pelo acúmulo de empregos. Curiosamente, nenhum em jornalismo: Giane trabalhou na DHL, na Brasil Telecom e numa consultoria petroquímica – onde pegou de vez o gosto pela economia ao acompanhar veículos especializados como Wall Street Journal, Gazeta Mercantil e Valor Econômico. Àquela altura, ainda que muito jovem, já acumulava boas experiências profissionais – inclusive, sua estreia aconteceu aos 15 anos, nas férias escolares, como vendedora de uma loja de biquinis e lingeries. “Foi superlegal, ganhei uma grana boa, eu era superpilhada.”
Outra fonte de renda era o flamenco, paixão descoberta aos 13 anos depois de ver a divulgação de um espetáculo na TV. De pronto, pediu à mãe que a levasse até o Tablado Andaluz, tradicional escola flamenca de Porto Alegre. Ali, chegou a frequentar quatro aulas por semana. Sozinha, pegava um ônibus em Gravataí e ia até o Centro da capital, de onde caminhava até a avenida Osvaldo Aranha, na antiga sede da escola. Giane, que até então fazia balé clássico, logo se tornou uma bailaora – trocando a negação da lei da gravidade, característica do balé, pelas mãos em ventarola e a patada no piso de madeira, típicas do flamenco. Por 12 anos, se entregou de corpo e alma à arte de raízes gitanas, inclusive fazendo apresentações remuneradas.
“O flamenco influenciou muito na minha formação como pessoa, como mulher. Essa questão da atitude, das cores que eu gosto, da música, tudo.” A jornalista, que há anos faz aulas de Zouk com o marido e de ginástica natural em família, agora sapateia em seu próprio tablado. “Danço em casa, de brincadeira, pois não consigo seguir uma rotina. E tem uma coisa legal, que é quando a pessoa está meia confusa e precisa buscar sua essência, decide fazer coisas que gosta. Eu danço no meu tablado ou marco uma aula com a Andrea [Franco, professora e proprietária do Tablado Andaluz].”
Onde se quer chegar
A busca pela própria essência é um exercício permanente. Pragmática, Giane não se considera ansiosa, o que permite encarar tantas frentes no trabalho com serenidade. “Atingi o que sempre quis, não tenho mais grandes ambições, apenas melhorar o que já faço, calibrando as coisas”, explica.
Na RBS, ela conta com o suporte de dois jornalistas. Seu desafio, avalia, é descomplicar assuntos complexos e transmitir uma mensagem de fácil compreensão ao público. Nesse sentido, carrega uma lição ouvida do CEO da Levi´s em uma edição da feira de varejo NRF, em Nova York: é preciso muita sofisticação para fazer o simples bem.
“Enxerguei o meu trabalho nisso e adaptei. Preciso estudar bastante para fazer uma entrevista boa, sobre um assunto complicado, e depois escrever de um jeito simples.” Não à toa, a dona da coluna mais lida em GZH tem seus espaços acompanhados pela nata do PIB gaúcho e cobiçados por empresários em busca de visibilidade para seus negócios.

Com Giane não há meio-termo. A premissa é válida das lides jornalísticas ao cuidado dos filhos – por exemplo, ela estudou educação montessoriana e visitou 14 escolas antes de matricular os pequenos. “Ela é extremamente dedicada em tudo que faz. Isso contagia. É exigente e zelosa. Tem a capacidade de enxergar além. E, mesmo tendo que se desdobrar para dar conta de suas atribuições, está sempre propondo algo diferente para fazermos em família”, elogia Joci, como é carinhosamente chamado pela esposa.
Até mesmo sua entrada na RBS em 2001, como estagiária, aconteceu por conta de um diferencial: o currículo de Giane era o único com fluência em inglês. Contratada para trabalhar na rádio CBN, com Tulio Milman, logo foi transferida para a Gaúcha, onde fez de tudo um pouco: escuta, produção, redação. Formada, virou redatora e, depois, produtora de Lasier Martins. Foi, também, uma das primeiras profissionais a participar do projeto multimídia da RBS, ao lado de Daniel Scola. “A gente ficava pipocando de veículo em veículo, aprendendo o que se fazia em cada um”, rememora. Mas foi de volta à produção de Lasier que se viu diante de um divisor de águas.
Giane não sabe precisar se foi em 2004 ou 2005 que Cyro Martins, Claudio Toigo e André Machado, então diretores da Gaúcha, constataram que a emissora precisava ter uma cobertura econômica. Num misto de sorte, destino e preparo, Giane substituiu Lasier e gravou entrevistas com o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central da época. “Eles [os diretores] ouviram as entrevistas e souberam que eu dava umas ajudas financeiras para colegas, como consultoria, e me perguntaram se eu queria criar um espaço de economia na rádio”, lembra. Do estágio até aqui, muita coisa aconteceu. Mas algo jamais mudou, afiança o marido: “A Giane de hoje segue com o mesmo brilho e dedicação do início da carreira”.