Dirigir uma Ferrari no fim de semana. Curtir as férias em um bangalô de Saint-Tropez. Dar um pulo de helicóptero em Trancoso para visitar um cliente. E o melhor: usufruir de tudo isso sem precisar desembolsar uma fortuna ou se preocupar com a manutenção.

Luxos assim se tornaram possíveis a partir do conceito de sharing economy — ou economia compartilhada. Fruto da crise de 2008, a ideia se baseia no consumo por meio de trocas ou partilhas, com o intuito de reduzir desperdícios. Entre outras aplicações, é possível compartilhar o acesso a bens de alto valor.

“É seu quando você usa, mas o custo é dividido por todos”, explica Marcus Matta, fundador e CEO da Prime You, considerada a maior empresa da América do Sul quando se trata de compartilhamento de aviões, helicópteros, embarcações, imóveis e carros esportivos.

Só que nem sempre foi assim. Nos idos de 2008, enquanto avaliava a viabilidade do negócio, Matta se deparou com um problema no andar de cima: ninguém queria dividir seus “brinquedos”. A solução foi entrar na mente do cliente, desenhando jornadas personalizadas.

O novo cotista responde a um questionário sobre hábitos, gostos e manias. Daí em diante, a experiência é talhada sob medida. Quando chega a hora de aproveitar sua fração, cada detalhe transmite a sensação de exclusividade. No final, o bem passa por uma inspeção rigorosa. É quase como se ninguém o tivesse usado. A fórmula deu certo – e logo vieram outras empresas oferecendo o mesmo serviço. Em vez de ser um problema, isso apenas confirmou a força do modelo.

Um estudo realizado em 2024 pela Bain & Company mostra que, desde 2018, a categoria tem evoluído de maneira contínua no Brasil — em média 18% ao ano. Até 2030, a expectativa é que o setor movimente cerca de R$ 130 bilhões.

O formato continua crescendo por um simples motivo: o comprador pode investir ou utilizar imóveis de alto padrão, otimizando o capital disponível.

Para adquirir uma cota de um imóvel com barco no valor de R$ 24 milhões, o cliente investe R$ 6 milhões, por exemplo. Com os R$ 18 milhões que sobram, o investidor pode comprar uma cota de casa com barco em outra cidade – ou mesmo de um jato ou helicóptero. “E ainda terá um bom dinheiro disponível para investir no que quiser”, diz o executivo.

Outros players preferem nichos específicos. É o caso da Avantto, que escolheu o caminho dos ares e se consolidou como a maior empresa de compartilhamento de helicópteros e aviões executivos da América Latina. “Desde que faça a reserva dentro do prazo estipulado, 6h de antecedência para helicópteros e 24h para jatos, garantimos uma aeronave. Você adquire uma fração de um modelo, mas, na prática, tem acesso a uma frota inteira”, descreve Rogério Andrade, CEO da empresa.

Atualmente, a Avantto tem 450 usuários voando com frequência, entre empresários, profissionais liberais e executivos. Como as aeronaves particulares passam mais tempo no hangar do que no ar, o sistema de pool compartilhado permite otimizar sua utilização. Assim, a empresa consegue realizar mais de 1.400 decolagens mensais e percorrer mais de 850 mil quilômetros por ano.

Quem curte o modelo

Algo parecido acontece no universo de carros esportivos. No momento da aquisição, o proprietário define quantas semanas por ano vai utilizar a máquina — e paga unicamente o valor correspondente a essa fração de tempo. É assim que funciona a Auto Fraction.

De acordo com Rafael Moscardi, CEO da empresa, um veículo de alta performance é utilizado, em média, apenas 50 dias por ano. Por isso, o modelo de assinatura compartilhada faz tanto sentido: os cotistas dividem as despesas e coordenam o uso em uma agenda prática, aproveitando o melhor do carro sem jogar dinheiro fora.

Para Yuri Remedio, executivo de tecnologia e entusiasta da velocidade, o modelo foi a realização de um sonho. Após conhecer a Auto Fraction, adquiriu uma cota de um Mustang Mach 1, seguido por outros carros de luxo. Para ele, o maior diferencial vai além da pista. Os cotistas frequentemente se reúnem em eventos como os track days, onde podem acelerar no autódromo de Interlagos e fortalecer conexões: “Não é só uma forma inteligente de investir. É a criação de uma comunidade — algo que não tem preço.”

Tendência entre o público de alto poder aquisitivo, a propriedade compartilhada abre portas para uma utilização mais inteligente de bens como supercarros, iates, jatinhos e até imóveis
Tendência entre o público de alto poder aquisitivo, a propriedade compartilhada abre portas para uma utilização mais inteligente de bens como supercarros, iates, jatinhos e até imóveis.

O empresário Regis Orsi também encontrou no compartilhamento uma forma mais eficiente de curtir o mundo sobre rodas. Após vender seu Porsche Panamera, reinvestiu o valor em cotas de três supermáquinas. “Eu pagava R$ 50 mil de seguro e IPVA para rodar menos de mil quilômetros por ano. Agora, troco de carro toda semana, aproveitando bem mais”, diz.

Orsi também aplicou a lógica do compartilhamento ao seu hobby náutico. Cansado dos altos custos para manter uma lancha de propriedade exclusiva em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo, adquiriu uma cota de uma embarcação de 36 pés com a Boatlux. “A cada dois ou três anos, a companhia faz um upgrade, e eu navego sempre com modelos novos. É muito mais prático e econômico do que a posse integral”, explica.

As relações entre cotistas transcendem o uso dos bens. Orsi descobriu que já compartilhava outros ativos com um de seus novos parceiros na Boatlux. “Acabamos estreitando os laços. Fizemos viagens juntos e até fechamos negócios. Esses encontros são uma parte inesperada, mas muito valiosa”, conclui.

Excelência de verdade

Carlos Pereira Jr., CEO da Boatlux, enxerga uma mudança de mentalidade no boom da multipropriedade no Brasil: “As gerações mais antigas valorizavam o orgulho de ter. Mas isso está mudando. Eu mesmo, nascido em 1987, prefiro ter menos coisas e mais liberdade.”

Deixar a lancha parada, como um troféu esquecido, já foi sonho de consumo. Hoje, porém, pagar por esse privilégio — as taxas de marina, a manutenção minuciosa, o verniz impecável — já não parece tão interessante. E assim, muitos trocam o fardo da posse pela leveza do usufruto, descobrindo que é possível navegar as mesmas águas com menos lastro, deixando para trás o apego ao bem e abraçando o simples prazer de partir.

A aquisição fracionada, inclusive, tem possibilitado histórias de pessoas que iniciaram no universo náutico com barcos de 31 pés e hoje possuem embarcações com o dobro do tamanho. “É comum suar a camisa para manter um barco sozinho. E nem precisa ser muito grande. Ao compartilhar um modelo maior e mais robusto com outros cotistas, o proprietário tem mais comodidade por até três vezes menos”, diz Pereira Jr.

A Boatlux gerencia atualmente mais de 3 mil cotas. São 80 pontos operacionais e mais de 400 embarcações. Ainda assim, consegue simplificar cada etapa: “Queremos que o cotista só tenha uma preocupação: escolher entre carne ou frutos do mar na churrasqueira.”

Propriedade compartilhada: tendência entre os endinheirados.

Você decide

Na Avantto, pontualidade é regra. Mas não é só a previsibilidade que conta. Tudo é pensado para surpreender. Parece algo pequeno, considerando o investimento, mas Rogério Andrade assegura que isso que separa o comum do extraordinário: “Cada vez que o cliente embarca, a aeronave é ajustada ao seu gosto. Sabemos exatamente o que ele prefere comer a bordo, quais leituras quer encontrar e até o tipo de música que ele gosta de ouvir.”

O Real Estate Duo da Prime You — uma mansão de alto padrão à beira-mar combinada com um iate de 62 pés ancorado no píer, pronto para zarpar — é mais uma prova de que o fracionamento e a exclusividade podem coexistir. Cada um dos quatro cotistas recebe um baú contendo itens pessoais selecionados — travesseiros, produtos de higiene, utensílios de cozinha. Para os amantes de vinho, há adegas climatizadas individuais, com capacidade para até 100 garrafas. Detalhes assim garantem que, mesmo em um modelo compartilhado, cada proprietário desfrute de um ambiente com a sua personalidade.

Os serviços inclusos são um show à parte. Um chef formado pelo Le Cordon Bleu – maior escola de culinária do mundo – está disponível para transformar qualquer desejo culinário em realidade. A tripulação, liderada por profissionais experientes, garante que a embarcação esteja sempre pronta. E, se surgir um desejo de última hora, o concierge cuida de tudo. Resumo da ópera: o pacote combina todas as comodidades de um hotel cinco estrelas com a privacidade de um lar.

O zelo pelo ativo raramente é um problema. Isso porque as empresas realizam uma triagem cuidadosa, analisando o histórico e o perfil dos interessados. “É uma maneira de proteger o patrimônio”, explica Marcus Matta, idealizador da Prime You. Nem mesmo o acerto da agenda entre os donos chega a ser problema. O calendário é definido em contrato, garantindo acesso igual a todos – em situações excepcionais, vale a regra do bom senso.

Todos esses predicados fazem do compartilhamento uma alternativa quase irresistível. Dividir a propriedade e delegar sua gestão transforma limites em oportunidades. É sobre ter acesso ao melhor de tudo, sem se prender a nada. O foco passa longe da ostentação. As novas gerações preferem “viver experiências”, em vez de “possuir coisas”, juram alguns marqueteiros. Como discordar? Melhor um passaporte cheio de carimbos do que um armário entulhado de coisas que você nem lembra ter comprado.