Dona de um perfil discreto e visionário, Aline Eggers Bagatini é a síntese perfeita entre tradição e disrupção, pilares indeléveis na trajetória da Fruki Bebidas. Desde 2019, ela está à frente da empresa, uma das marcas mais icônicas do Rio Grande do Sul. Sucedeu ao pai, Nelson Eggers – hoje com 87 anos e presidente do Conselho Consultivo –, e cederá lugar a Júlio, um de seus cinco irmãos, em 2029. “Quando cheguei ao meu quinto ano [como CEO], comecei a sofrer, porque sabia que estava terminando. Por outro lado, fico feliz por ainda ter mais quatro anos pela frente”, diz.

Com 101 anos de história, a Fruki navega com maestria em uma faixa de mercado que lhe é peculiar: está longe de ser uma simples fabricante de tubaínas, como são conhecidos os refrigerantes regionais à base de guaraná; tampouco se equivale a multinacionais como Coca-Cola Company ou PepsiCo. Ainda assim, incomoda as grandes, o que lhe confere o direito de ser chamada de gigante. Tanto que está prestes a entrar no seleto clube do bilhão: em 2025, pela primeira vez, deverá superar R$ 1 bilhão de faturamento.

Nesta entrevista, concedida com exclusividade para Business Talks, Aline fala com franqueza sobre o presente e o futuro dos negócios, além de refletir sobre desafios da liderança e a própria carreira. Em relação ao sucesso da Fruki, diz que segredo não está apenas no sabor, mas na arte de criar conexões autênticas com o consumidor – seja ele um gaúcho orgulhoso ou um astro como David Beckham.

Herdeira de uma cultura centenária, a CEO da Fruki Bebidas fala sobre desafios estratégicos, liderança e crescimento no ano em que a empresa deverá faturar, pela primeira vez, mais de R$ 1 bilhão.
Herdeira de uma cultura centenária, a CEO da Fruki Bebidas fala sobre desafios estratégicos, liderança e crescimento no ano em que a empresa deverá faturar, pela primeira vez, mais de R$ 1 bilhão

A Fruki ocupa uma posição peculiar no mercado de refrigerantes, entre as tubaínas – bebidas regionais feitas com guaraná – e as multinacionais. Como você enquadraria a empresa?
Primeiramente, vejo a Fruki como uma empresa centenária. É gaúcha, mas também brasileira. Uma empresa que combina tradição e inovação, sempre com o objetivo de entregar sabor de alta qualidade, além de criar uma identidade e uma conexão muito forte com o consumidor. Trazemos um olhar atento o tempo inteiro para o consumidor e suas necessidades. É um compromisso nosso.

Como acontece essa relação com o consumidor?
Buscamos entendê-lo de diferentes maneiras, seja por meio da nossa área interna de pesquisas, pela interação nas redes sociais ou mesmo nos eventos em que estamos presentes. São tantos que, na média, significa mais de um por dia – desde os muito grandes até os pequenos. Por exemplo: no último STU Pro Tour [evento do circuito internacional de skate, que aconteceu em março em Porto Alegre], fizemos uma ação muito bacana com o Fruki Lab. As pessoas chegavam no nosso estande e criavam sabores, elaborando misturas a partir de uma lista de ingredientes. Foi um sucesso. Tanto que levamos o Fruki Lab para Balneário Camboriú, em junho, para a ExpoSuper, maior evento supermercadista de Santa Catarina.

A ideia do Fruki Berga partiu do público, certo?
Esse lançamento é de 2022 e aconteceu muito em função das respostas que obtivemos nas redes sociais. Tudo começou com uma brincadeira de 1º de abril: “Que sabor a Fruki está lançando?”. Num primeiro momento, dissemos que seria um quentão – aliás, estou querendo esse produto. O pessoal começou a brincar e apareceu muito a ideia de um Fruki bergamota. Pronto, rapidamente começamos a produzir. Um tempo depois, lançamos o Frucaxi, que é um guaraná com abacaxi. Entre outros exemplos de lançamentos recentes estão a Água da Pedra saborizada [com seis sabores] e o energético Elev, que atende a um consumidor jovem, que exige inovação constante.

É verdade que as marcas Fruki e Água da Pedra estão registradas em mais de 30 países há décadas? Existe um plano de internacionalização?
O registro de marcas no exterior é só uma garantia, um cuidado. Nosso foco está no Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Antes do mundo, temos um Brasil inteiro pela frente para crescer. Em breve, quem sabe, podemos pensar em outros estados, mas ainda tem muito a se fazer aqui nesses dois.

 Em 2011, viralizou uma foto do ex-jogador inglês David Beckham com uma lata de Fruki guaraná nas mãos, na Califórnia. Como isso chegou até vocês?
Ficamos sabendo por meio de uma cliente de Porto Alegre. Ela encontrou a foto na internet, reparou a lata na mão dele e mandou a notícia para o nosso SAC. A pessoa do SAC me encaminhou, mas só fui ver a mensagem duas semanas depois. Quando notei que era o Beckham, quase desmaiei. Eu disse: “não pode ser!”. Peguei a foto e mandei para uns amigos e também para algumas pessoas da Fruki. Minutos depois, toca o meu celular e é um jornalista de São Paulo querendo falar sobre a foto do Beckham, que ele havia recebido de um amigo de Lajeado. Aquilo bombou. Fiquei uma semana praticamente só atendendo o telefone para falar disso – e o meu pai também.

E vocês descobriram como a latinha de guaraná foi parar nas mãos dele?
Fomos atrás e descobrimos que um lajeadense que morava nos Estados Unidos havia feito uma exportação para lá. E aí caiu na mão do Beckham porque ele costumava frequentar um restaurante brasileiro, apresentado por jogadores brasileiros. Depois falamos com os proprietários e eles contaram que o Beckham sempre tomava Fruki e ainda levava para casa. Foi sorte ele levar só uma latinha, né? Se fossem mais, as latas estariam em uma sacola e ninguém as veria. Aquilo foi tão marcante que chega a ser difícil descrever. Foi como se a nossa marca, a nossa empresa, ganhasse um novo status, um selo de qualidade global, de autenticidade: “A Fruki está no mundo e tem uma estrela consumindo o produto!”. O episódio mexeu demais com o nosso orgulho, marcou a nossa existência – e não só de quem está aqui dentro, mas também dos gaúchos. Foi um presente que caiu do céu.

A Fruki é, inegavelmente, uma marca simpática para os gaúchos. A que você atribui esse sentimento?
Realmente, os nossos consumidores têm uma memória afetiva muito bonita. É comum a gente conversar com as pessoas na rua, em um evento, aqui dentro, e cada uma tem uma história muito bacana a contar, que remete a um momento bonito, em família ou entre amigos. Quando surge esse vínculo emocional, acho que conecta muito ao nosso produto, ao nosso propósito.

E a sua relação com a Fruki na infância, como era?
Eu cheguei a fazer algumas tarefas aqui, mas nem sei se posso chamar de trabalho. Nas férias, meu pai me trazia e pedia ajuda para fazer coisas como organizar notas fiscais, que naquela época eram impressas em formulário contínuo. Mas ele procurava separar as coisas, então eu e meus irmãos não vivemos o negócio. Ouço muito de filhos de empresários que nem sequer tinham férias, pois ficavam trabalhando, ajudando até mesmo a carregar e descarregar caminhão. Conosco não havia nada disso. Meu pai entendia que o mais importante era transmitir valores aos filhos. O desejo dele era de que todos se tornassem bons profissionais para o mundo, pois assim certamente seriam bons profissionais para a Fruki, caso um dia a empresa precisasse. Mas nunca criando expectativa ou compromisso em relação a isso.

Seu pai liderou a Fruki por 60 anos, até você assumir, em 2019. Qual é o maior legado que ele passou a você e como é a presença dele na empresa hoje?
Ele tem 87 anos e está sempre por aqui, já que preside o Conselho Consultivo. Vem diariamente e faz questão de estar próximo das pessoas, com a porta do escritório sempre aberta. Ele é um empreendedor visionário, uma inspiração para todos, um líder muito humano e que tem uma paixão por esse negócio que ele construiu. A Fruki é uma empresa moderna, apesar de centenária, e ele sempre teve um olhar cuidadoso para a gestão, para as pessoas e para a tecnologia. Então eu vejo que o seu Nelson Eggers é aquele cara que soube construir uma cultura muito bacana e fortalecê-la ao longo dos anos. E graças a tudo isso a Fruki hoje colhe frutos.

No livro dos 100 anos da Fruki, ele diz que nenhum filho deve começar a trabalhar pela empresa do pai. Como foi sua passagem no Grupo Ipiranga?
Comecei a trabalhar em uma holding do Grupo Ipiranga, em 1992, e lá permaneci por dez anos. Tive a sorte de ter um grande líder, que também era um grande ser humano, José Brandi Sastre, uma pessoa que deixou bastante saudade. Tenho uma lembrança quase diária dele, das lições que ficaram. Ali eu tive a chance de conviver com executivos, acionistas – e ele era um dos acionistas, envolvido com o Conselho de Administração. Eu preparava os materiais para as reuniões do Conselho e do Comitê Executivo. A Ipiranga foi, acima de tudo, uma escola. Mas também uma grande referência de governança, de estratégia e de visão de longo prazo.

Sede da Fruki em Lajeado.
Sede da Fruki em Lajeado.

E quanto à sua entrada na Fruki? Como filha e herdeira, é de se imaginar que você pensava em trabalhar na empresa, não?
Não pensava. Eu saí da Ipiranga quando meu pai, no dia do meu aniversário, me convidou para jantar. Para minha surpresa, também me convidou para trabalhar com ele. E ainda não tinha parado para pensar sobre isso. Eu vinha fazendo a minha carreira na Ipiranga, as coisas estavam acontecendo numa batida legal, eu estava muito feliz. E, quando meu pai me chamou, a princípio relutei. Minha resposta não foi imediata. E aí o meu chefe, o Sastre, disse: “É a empresa da tua família. Se o teu pai está te chamando, é porque ele precisa da tua ajuda”. Foi muito legal como tudo aconteceu. E aqui na Fruki encontrei alguém igual ao líder que eu tinha, um mentor, que é meu pai.

 Quando você entrou na Fruki, já existia a ideia de ser a sucessora?
Não havia um plano de sucessão. O convite naquele primeiro momento foi para abrir o primeiro Centro de Distribuição, em Porto Alegre. A ideia era que eu continuasse morando em Porto Alegre. Acontece que eu engravidei nesse meio tempo – o que era planejado. Aí pensei: “Bom, vai acontecer tudo junto? Paciência”. E aconteceu. Eu vim para Lajeado conhecer as pessoas, a cultura, mas com a intenção de fazer o projeto e voltar. Mas meu pai pediu para aguardar um pouco com a abertura do CD. Eu fui me envolvendo com o PGQP [Programa Gaúcho da Qualidade e Produtividade], do Jorge Gerdau, pois sempre o admiramos e queríamos implantar o programa aqui. Fomos fazendo outras coisas necessárias, como a criação da área de Recursos Humanos. Quando minha filha nasceu, voltei à ideia do CD em Porto Alegre, mas meu pai disse: “Não, agora tu não vais mais sair de Lajeado”. Foi assim que acabei ficando. E minha irmã [Fabíola Eggers] entrou para tocar o projeto do CD. Três anos depois, em 2005, começamos a implantar a governança na Fruki.

Claro, a sucessão passa diretamente por uma estrutura de governança bem organizada.
Sim, daí começamos a discussão de órgãos de governança e de acordo de acionistas. E de futuro, também, sobre como se daria a sucessão. Mas não foi de um dia para o outro. É algo longo, que requer muita reflexão, muito amadurecimento. E que gera desconforto. Tanto é que o meu pai começou a debater sucessão, mesmo, só em 2013 – e olha que iniciamos com a governança em 2005. Mas ele sempre soube que em algum momento teria que sair da liderança da empresa. Inclusive, ele conta que fez um curso sobre o assunto na Federasul na década de 1980 e que, lá naquele momento, começou a pensar em preparar os filhos e o próprio negócio. Dos seis filhos, cinco trabalham na Fruki.

Ainda que você seja jovem, já existe um plano traçado para a sua sucessão, certo?
Nosso acordo prevê que meu irmão, Júlio Eggers, assuma daqui a quatro anos. Eu fico dez anos e, na sequência, ele fica mais dez. Eu já estou sofrendo, mas a felicidade é uma escolha. Faço terapia, também. É difícil, tem dor. Quando cheguei no quinto ano, comecei a sofrer, porque sabia que agora eu estava terminando. Por outro lado, que bom que ainda tenho quatro anos – se em seis já deu para fazer tanta coisa, né? Mas o fato de eu me envolver em outras frentes, com entidades, me mostra que o mundo precisa de pessoas auxiliando em outros lugares. Não vou ficar parada vendo as coisas passarem. Até porque também irei acompanhar a Fruki como conselheira.

Falando nisso, como está organizada a estrutura societária da Fruki?
É importante lembrar que a Fruki é uma empresa centenária e não existe só a família Eggers; tem os Kirst também. São cinco holdings acionistas, formadas por primos – meu pai, seus primos e as gerações abaixo. Eu sou da quarta geração, e já tem gente que é da quinta. Se olhar para pessoa física dentro da holding, são 30 pessoas. Mas se somar filhos, cônjuges, aí chegamos a cerca de 100 pessoas. E é claro que precisamos cuidar muito bem das relações entre todas essas pessoas, garantindo a união para que a empresa siga sempre forte e saudável.

Desde a sua chegada, a fruki vive um crescimento exponencial – basta considerar o faturamento de R$ 140 milhões em 2010 e os R$ 864 milhões de 2024. a que você atribui tamanha expansão?
A primeira coisa é ter um time muito competente. A gente realmente busca pessoas qualificadas para somar, e investimos muito em quem está aqui. Essas pessoas também estão bem alinhadas à cultura Fruki. Com isso, formamos um grande time, bastante unido. A profissionalização também é importante. Em 2019, logo que assumi como CEO, fizemos uma grande avaliação da cultura Fruki e decidimos fortalecer a essência do negócio e agregar agilidade na tomada de decisão. Isso nos permitiu abrir ainda mais a mente e crescer. Tem também o fato de os acionistas que trabalham na empresa serem exemplo em tudo o que fazem – afinal, eles precisam inspirar o time e praticar o que a empresa acredita. O fortalecimento da governança é fundamental porque a empresa precisa manter um bom relacionamento com os acionistas. Então, tudo se trata de pessoas – e eu não decido nada sozinha. Descentralizamos a tomada de decisão, pois uma escolha compartilhada traz resultados melhores. Fatores assim blindam a governança do negócio.

O primeiro semestre de 2025 tem números expressivos. Chegamos ao ano do bilhão?
Sim… Estamos crescendo fortemente no mercado catarinense, e, por incrível que pareça, também no Rio Grande do Sul – apesar dos 100 anos de história por aqui. No semestre, crescemos 52% em Santa Catarina e 28% no Rio Grande do Sul. E aqui, cabe dizer, é um crescimento sobre uma base que já era grande. Se pegarmos refrigerante e água mineral, somados, esses produtos representam 90% do mercado de não alcoólicos da empresa. Todo o resto, tudo que a gente lançar – energético, suco 100%, refresco, chá, isotônico etc. – qualquer coisa que se imaginar, vai somar nos outros 10%.

Ainda assim, é fundamental trazer novidades ao mercado para manter o ritmo, não?
Os produtos lançados nos últimos dois anos respondem por 20% do faturamento. Tem água saborizada, água em lata, guaraná 3 litros, guaraná 200 ml. Os carros-chefes são o guaraná 2 litros e a água 500 ml. Então, a gente sabe que não pode parar de lançar produto e que cada lançamento mexe com as vendas. Nosso cliente, o varejista, pede um mix forte e completo. Ele não quer saber de cinco fornecedores diferentes, mas sim de quem tem um cuidado enorme com a qualidade dos produtos, um nível de serviço elevado e um relacionamento de confiança.

A propósito, a unidade de Paverama entrou em funcionamento em dezembro de 2023 e já foi ampliada.
Até agora, foram R$ 300 milhões em investimentos. E vem mais por aí. A planta de Lajeado tem 2,5 hectares, o que estava nos limitando. Não havia mais espaço para nada, nem para manobrar um caminhão. Ela ficou muito pequena. Já em Paverama são 88 hectares, e usamos 8. Todos os prédios de Paverama foram planejados com espaço para ampliação entre eles. O local é adequado para suportar um crescimento, que vai depender da demanda.

O que pode ser produzido nessa fábrica?
Temos uma linha de garrafa PET que vai desde 200 ml até 3 litros. Então, tudo o que for feito dentro desse volume, podemos fazer lá. Hoje, a gente vai administrando duas plantas: Lajeado e Paverama. E aí o pessoal do planejamento e controle define o que vai produzir em cada unidade. Mas Paverama tem essa condição de produzir qualquer produto que necessite garrafa PET. Em Lajeado, não podemos fazer a de 200 ml, nem a de 3 litros, por exemplo.

Como é o assédio por parte de investidores?
Olha, a gente está tão focado no negócio e em nossos objetivos, nessa cultura Fruki, que não temos tempo para ouvir propostas. Não pensamos nessa possibilidade. Eu até recebo mensagens, e-mails de pessoas que dizem ter uma oportunidade, mas ainda temos tanto para realizar, que, sinceramente… Meu pai sempre disse: “Eu preciso desse emprego”. E quantas pessoas aqui dependem da gente, não é?

Há anos, a Fruki está entre as melhores empresas para trabalhar no Brasil, conforme o Great Place to Work (GPTW). Mas não é de hoje que a empresa é conhecida pela valorização do capital humano. Qual é a receita para criar esse tipo de relação com seus mais de 1.200 colaboradores?
São vários aspectos para que as pessoas se sintam parte do negócio. Tudo começa com um trabalho com os líderes, no sentido de prepará-los para que eles tenham visão e ajam como se fossem donos do negócio – para que pratiquem a cultura de oferecer um ambiente acolhedor e de confiança. Com esse espírito de colaboração, conseguimos uma forte união e um grande time. A gente confia e cobra responsabilidade, com metas e objetivos muito claros. Costumo brincar que não estamos em uma colônia de férias. Queremos um lugar gostoso para trabalhar, que é festivo, mas sempre olhando para resultado. Quando existe essa clareza, as equipes se engajam.

A sede da Fruki fica na BR-386, em Lajeado, uma das cidades mais atingidas pelas enchentes de 2023 e 2024. Como foi o envolvimento com essas tragédias?
A gente se emociona só de lembrar, porque foram dias muito complicados. Mas, naquele momento, tínhamos claro que era preciso ajudar. Não paramos a produção em nenhum momento. Colocamos todas as linhas a produzir e envasar água. Muita gente da nossa equipe e clientes foram afetados, e ajudamos a comunidade de forma geral, com caminhões-pipa que saíam tanto daqui como de Paverama. A nossa sorte foi ter uma fábrica do lado de cá e outra do lado de lá da ponte [sobre o rio Taquari, cujo nível chegou a 33 metros]. As duas ficaram atendendo a região. A Fruki tem esse propósito de olhar para comunidade. Em 2023, havíamos criado um grupo multissetorial com a responsabilidade de auxiliar nas enchentes. Isso tem a ver com uma provocação sempre feita pelo meu pai, de a gente estar sempre auxiliando a comunidade, retribuindo o orgulho que ela sente pela Fruki.

E como é a sua vida fora para além da empresa?
Fui a primeira mulher presidente da Associação Comercial Industrial de Lajeado, entre 2018 e 2019. Hoje, coordeno um arranjo produtivo local de alimentos e bebidas no Vale do Taquari que reúne mais de 50 empresas. A maioria são micro ou pequenas, mas o legal é que elas estão nesse mesmo APL ao lado de grandes marcas, como Fruki, Neugebauer, Docile, Baldo e Sorvebom. É um trabalho extremamente gratificante. Além disso, tenho sido convidada cada vez mais para dar palestras. Participo, ainda, dos conselhos da Amcham-RS e do Transforma RS, então são várias atividades. Entendo que o meu papel, hoje, além da Fruki, é estar próxima de outras iniciativas da comunidade ou de empresários. Não encaro nada disso como trabalho, mas como momentos para conexão, de busca de conhecimento e até mesmo para desopilar.

E você encontra tempo para cuidar de si mesma?
Tento organizar a minha rotina de forma que eu consiga ter esse cuidado. Então, às 6h de hoje eu estava na academia, por exemplo, que é algo que faço duas vezes na semana – eu sei que o ideal seria mais. Eu estudo inglês, faço terapia… São várias coisas que me fazem bem. Minha filha está com 22 anos e mora em Porto Alegre, então quando vou para lá aproveito para ficar com ela. Aqui na Fruki, a gente sempre fala muito da importância da qualidade de vida. Tem uma passagem com o meu pai logo quando entrei na empresa que ilustra bem isso. Eu havia agendado uma reunião com um pessoal de fora para as 17h30. Às 17h, meu pai levantou e disse: “Estou indo embora. Vou para a academia, depois jogar tênis e ler um livro. Aqui a gente não marca reunião nesse horário”. Eu demorei para entender, mas agora eu vejo o quanto isso faz bem para todo mundo.