Às vésperas de embarcar para Miami, nos Estados Unidos, a empresária Lisete Reiter estava duplamente ansiosa. E não sem motivo: afinal, ela e o marido, Wilmar, se tornariam avós pela primeira vez.
A questão é que, para acompanhar o nascimento do neto e dar suporte ao filho e à nora, o casal precisaria deixar de lado a rotina de trabalho ao longo de mais de um mês – algo que nunca aconteceu nos últimos 35 anos. Assim, a viagem também se tornaria uma oportunidade para discutir o futuro da Movesco – Indústria de Móveis Escolares.
Muito mais que um empreendimento familiar, a Movesco é a concretização de um sonho.
Quando criaram a empresa, Lisete e Wilmar vinham de trajetórias bem distintas. Ele, como representante comercial; ela, como professora e diretora de escola em Lajeado, no Vale do Taquari. Ao perceber a carência de bons fornecedores de mobiliário escolar, o casal decidiu apostar nesse mercado.
Do início modesto, com apenas três funcionários, a Movesco cresceu e se tornou uma das principais empresas do setor, vendendo para todo o Brasil. Seus princípios permanecem os mesmos: inovar nos processos de fabricação e oferecer produtos com durabilidade, resistência, ergonomia e acabamento.
Um dia antes da viagem, Lisete conversou com a reportagem de Business Talks. Na entrevista a seguir, a empresária reflete sobre sua própria trajetória, fala de processo sucessório e dos desafios inerentes à posição de liderança que ocupa.
Conte um pouco sobre as origens da Movesco. de onde vem a ideia de criar a empresa?
A Movesco foi fundada em 1989, em Arroio do Meio [a 10 quilômetros de Lajeado, cidade natal dos sócios], pois não conseguimos, na época, um local apropriado e dentro das nossas condições financeiras para começar. O mentor de tudo foi o meu esposo, Wilmar, que tem uma grande percepção para os negócios e trabalhava como representante comercial autônomo. Certa vez, um cliente dele falou sobre a dificuldade de encontrar alguém que fornecesse mobiliário escolar. Como eu era professora de Ensino Fundamental, sabia que isso era realmente um problema. A partir dessa constatação, construímos a nossa fábrica. Eram três funcionários e um prédio alugado. Até 1993, eu continuei trabalhando em escola, como diretora, pois sempre gostei dessa área da gestão. Desde então, o Wilmar é responsável pela área comercial, enquanto eu cuido da das questões administrativas e financeiras. Sempre gostei da parte de gestão.
Como é a estrutura atual da empresa, três décadas e meia depois? Quem é a Movesco?
Conquistamos espaço no mercado aos poucos. Como a demanda foi aumentando, conseguimos erguer nosso primeiro prédio em Lajeado, e, posteriormente, outros dois. Agora, pretendemos construir mais três, para 2025, todos voltados à produção fabril. Com isso, vamos chegar próximo a 50 mil metros quadrados de área construída. Na última década, investimos muito em tecnologia de Indústria 4.0. Nosso maquinário, na fábrica, conta com vários robôs, o que garante um grande controle da produção. O desafio, atualmente, está em contratar pessoas qualificadas para lidar com equipamentos avançados. Nesse quesito, acabamos nos tornando uma espécie de escolinha de treinamento e capacitação. Hoje, ao todo, temos 210 funcionários.
Quais são e onde estão os principais mercados da Movesco?
Atendemos todo o Brasil. A maioria dos clientes está na região Sul, até pela proximidade, mas também vendemos bastante para outras regiões, como Nordeste e Sudeste. A demanda maior vem do setor público, que corresponde a 80%, 85% das vendas. O segmento privado decaiu muito depois da pandemia, pois houve dificuldades para manter os alunos. Também tivemos as nossas perdas, já que ficamos praticamente fechados naquele período. Felizmente, de 2022 para cá, conseguimos nos recuperar e ultrapassar em 40% o faturamento previsto. Sempre no fim de ano, por exemplo, temos muitos pedidos, porque se aproxima do encerramento do ano letivo.
A empresa está sediada no Vale do Taquari, uma região duramente afetada pelas enchentes de 2023 e 2024. Como foi esse período?
Não fomos diretamente impactados, já que estamos distantes das áreas alagáveis. Mas indiretamente, sim. Ficamos sem energia, e 40% dos nossos funcionários foram afetados. Muitos não conseguiam nem mesmo acessar a fábrica, por conta da interdição da ponte que liga Encantado a Arroio do Meio, por exemplo. Mas depois da tragédia o nosso trabalho triplicou, com muita procura de escolas aqui da região e de Porto Alegre. Ainda há muitos clientes precisando de móveis com urgência, “pra ontem”. Tentamos atendê-los no menor prazo possível.
A Movesco é uma empresa familiar consolidada em seu segmento. A senhora e seu marido estão à frente do negócio há 35 anos. Como lidam com a ideia de um processo sucessório?
Temos dois filhos. Um deles é o Vinícius, que é engenheiro de produção e está inteirado dos processos da Movesco, disposto a assumir a empresa. Já a Karine é arquiteta, tem uma carreira consolidada na arquitetura. Ainda assim, a intenção é que ela também passe a atuar na Movesco. O plano é contar com uma consultoria para nos orientar nessa transição – inclusive, com a ajuda da Fernandes Machado, por meio do doutor Luciano Fernandes e da equipe, que já nos mostraram alguns caminhos. Aos poucos, a gente vai se “libertando”, mas sem se afastar completamente. Essa nossa viagem para os Estados Unidos, por exemplo, será um movimento inédito, pois nunca ficamos tanto tempo afastados. Por outro lado, é uma oportunidade para saber como a Movesco “se vira sozinha”, sem a presença de alguém da família.
Em 2024, o empresário Tallis Gomes causou polêmica ao escrever: “Deus me livre de mulher CEO”. Segundo ele, mulheres em posição de liderança passam por um “processo de masculinização” que coloca o lar em quarto plano, o marido em terceiro e os filhos, em segundo. Qual é a sua opinião?
Meu envolvimento com a empresa é completo. Acompanho reuniões envolvendo todos os assuntos e, se duvidar, vou até a fábrica soldar uma cadeira. Sempre me mantive tomando a frente – mesmo que meu esposo também tenha as responsabilidades dele –, seja com maquinário, clientes ou participando de feiras e eventos. Quando você faz o que gosta, mergulha de cabeça. E pode acabar se tornando um pouco egoísta, pegando para si essa liderança. Talvez ele [Tallis Gomes] tenha usado palavras pesadas, mas a gente faz isso mesmo. Na Movesco, o Wilmar e eu somos uma dupla quase perfeita. São 43 anos de casamento e 35 de empresa.
Quais são as lições que a senhora tira de sua trajetória enquanto líder e empreendedora?
Quem vê de fora pensa que é tranquilo, que tudo sempre dá certo, só enxerga o crescimento. Mas, como em toda empresa, enfrentamos dificuldades. Apesar de não ser uma vida fácil, eu amo o que faço. Às vezes, recebo críticas e conselhos do tipo “dá um tempo do trabalho e cuida um pouco de ti”. Mas isso está na pessoa, de fazer o que gosta. Minha maior preocupação não é com o tamanho do resultado, mas de fazer bem, atender bem, satisfazer os nossos clientes. E eles reconhecem todo esse esforço, felizmente.