Quem ocupa o topo da hierarquia empresarial tem uma vida intensa – para o bem e para o mal. Os executivos C-Level enfrentam a pressão de tomar decisões críticas para o futuro da empresa, coordenar equipes de alto desempenho e buscar resultados incansavelmente. Tudo isso enquanto lidam com uma agenda lotada e a expectativa de conselheiros e acionistas. Apesar das exigências, os salários e benefícios são acima da média e o status do cargo garante uma série de oportunidades pessoais e profissionais. O problema é quando, de uma hora para outra, a realidade muda e a rotina se esvazia. É o que acontece no momento da aposentadoria.
“O C-Level está acostumado a um ritmo intenso e a um desafio intelectual muito elevado. E, geralmente, tem a carreira como sua prioridade de vida”, analisa Karin Parodi, sócia-fundadora da Career Center. Com a experiência de quem trabalha há 33 anos com executivos de alto escalão, Karin é direta ao explicar o que significa a aposentadoria para esse público. “Sair do mundo corporativo quando o profisisonal está no ponto mais alto da carreira é como um divórcio ou a morte de um ente querido”, compara. Faz sentido, uma vez que a perda súbita de prestígio e capital, entre outros fatores, pode gerar um baque emocional que leva ao tédio, à baixa autoestima e até à depressão.
Para evitar uma transição traumática, é fundamental preparar a retirada com antecedência. Especialistas do The Onix Group, uma comunidade global que reúne ex-CEOs, apontam dois anos como o prazo ideal. Em artigo publicado na Harvard Business Review, eles identificam os desafios mais comuns entre gestores no final da carreira e fazem um alerta especial: é necessário entender que uma etapa nova está por vir. E muito do que foi construído ao longo de décadas ficará para trás. Estima-se, por exemplo, que 95% da rede de contatos se perca com a chegada da aposentadoria.
O planejamento, entretanto, não é a regra. Essa realidade leva boa parte dos profissionais a encarar dilemas e desconfortos na hora de se aposentar. Daniel Blumen, que é sócio-diretor da Blumen, uma consultoria especializada em apoio no pós-carreira, conta que a principal angústia é financeira. “Nesta fase, os C-Levels querem manter seu padrão de vida e seus relacionamentos sociais”, afirma. Ele ressalta que esse é apenas um dos aspectos a se considerar. “O foco deve ser uma preparação mais abrangente.”
A Blumen capacita profissionais para a aposentadoria com base em sete dimensões de vida e carreira: identidade, trabalho, relacionamentos, saúde, qualidade de vida, finanças e sentido de vida. O primeiro passo é refletir sobre a própria trajetória e inventariar tudo o que foi construído, identificando as competências e aprendizados marcantes para deixar aflorar interesses, por vezes, esquecidos. Essa retrospectiva é a base para dar o próximo movimento. O Career Group segue uma abordagem similar e oferece suporte de especialistas em
diversas etapas dessa jornada, incluindo planejamento financeiro, desenvolvimento de novas ocupações e cuidados com a saúde física e mental.
Empresas especializadas em pós-carreira são cada vez mais procuradas por setores de RH preocupados em auxiliar os colaboradores na transição para a aposentadoria. Os programas variam em duração e público-alvo. Na Cargill, o projeto Novo Tempo existe desde a década de 1990, dura seis meses e é destinado a empregados acima de 45 anos em cargos de supervisão, coordenação, gerência e diretoria. O Grupo CCR atende profissionais acima de 55 anos, oferecendo abordagem individual e workshops sobre temas como previdência privada, assistência médica, finanças e relacionamentos. Já a Serasa Experian dá suporte contínuo sobre contagem de tempo, documentação e encaminhamento da aposentadoria, com apoio de uma assistente social. Independentemente do modelo, esses programas são importantes para abordar o tema e garantir uma transição mais tranquila, além de configurarem um benefício aos colaboradores.
Novas possibilidades
Entre descansar ou procurar uma nova atividade, a maioria dos profissionais do alto escalão prefere se manter ocupada mesmo após a aposentadoria. Frases como “Quero continuar enfrentando desafios” e “Quero continuar ativo” são corriqueiras nas conversas de Karin Parodi com C-Levels que já estão chegando ao fim da carreira. Ela observa que mesmo aqueles que decidem passar por um período sabático logo consideram retornar à atividade. Isso porque as gerações que estão se aposentando hoje veem o trabalho como parte central de suas vidas.
Mas encontrar uma ocupação que atenda às expectativas de quem chegou ao topo da carreira pode ser um desafio. Além disso, os especialistas do The Onix Group advertem sobre a seca de oportunidades que pode surgir com a aposentadoria. O cenário é agravado pelas dificuldade dos executivos em promover sua marca pessoal no mercado. Após décadas creditando o êxito do trabalho a suas equipes, eles precisam ser proativos e confiantes para buscar oportunidades na nova fase.
“A reinvenção e o reposicionamento do C-Level requerem um movimento triplo de construção de autoconfiança, autorrespeito e autoestima, na busca do reconhecimento por sua nova identidade pessoal e profissional”, explica Blumen. “Isso demanda uma nova consciência de suas possibilidades nesta etapa e um movimento individual e enérgico de protagonismo na construção de seu futuro”, completa.
Consultorias e vagas em conselhos de administração são algumas das atividades mais buscadas por executivos de alto escalão na aposentadoria. Muitos optam por combinar essas funções com a docência em universidades e cursos de MBA – o que exige o título de mestrado. Seja qual for a escolha, é preciso buscar capacitação e montar um portifólio – como se fosse o pontapé inicial de uma nova carreira. Estratégias de reskilling e upskilling também são indicadas para adequar as competências aos novos desafios.
Como geralmente têm experiência em áreas administrativas e financeiras, os C-Levels podem direcionar o foco pós-carreira para investimentos. Nesse sentido, há uma tendência de atuação no mercado de startups. Faz sucesso entre ex-executivos a troca de mentorias e treinamentos por uma participação societária nesses projetos emergentes. Além disso, empresas familiares e de menor porte frequentemente necessitam de apoio para estruturar sua governança corporativa, o que representa um mercado potencial.
Por outro lado, é preciso ter cuidado para não travar diante das alternativas e acabar optando por algo que não gere satisfação. O The Onix Group recomenda listar um conjunto de critérios para avaliar o que realmente vale a pena. As seguintes perguntas podem ajudar: “Quero trabalhar sozinho ou em equipe?”, “Para qual causa pretendo me dedicar?”, “Quero viajar a trabalho ou manter um home office?”. Reflexões assim evitam caminhos que parecem atraentes no início, mas que, no fim das contas, descolam-se dos desejos pessoais.
“O mais importante é ter uma cesta de atividades, pois muitas vezes você não terá outro emprego em tempo integral”, diz Karin. Nessa combinação, entra o cuidado com a saúde física e mental: buscar terapia, conversar com a família e manter o corpo em movimento fazem parte da rotina. Afinal, mesmo para executivos experientes, acostumados com os altos e baixos da vida corporativa, o controle emocional é peça-chave para o sucesso no pós-carreira. “Você também vai querer dedicar um tempo a si mesmo e aproveitar a vida”, completa Karin.