Há quem diga que eles foram criados por imigrantes do norte da Itália. Mas para o diário Clarín, o mais popular da Argentina, os sanduíches de miga são uma criação genuinamente portenha. Sua origem se deve a um grupo de engenheiros ingleses que costumava se reunir na Confitería La Ideal – um ícone de Buenos Aires – no início do século 20. Nostálgicos, teriam solicitado ao padeiro que lhes preparasse sanduíches com um pão parecido com aquele que comiam em sua terra natal: fino, sem casca, macio e levemente úmido.

Décadas depois, o sabor singular do sanduíche de miga cruzaria a fronteira para fazer história em Porto Alegre.

Em 1975, Julio Eduardo e Teresa Yustas eram novatos na capital gaúcha quando abriram as portas da Primavera Sanduicheria – cuja trajetória continua sendo escrita pelas filhas, Carina e Silvina. A família, que antes morava em Comodoro Rivadavia, na Patagônia argentina, fixou residência em Porto Alegre para que Julio transitasse entre Rio Grande e Santos, já que trabalhava em uma multinacional portuária. Enquanto o patriarca passava a semana viajando, Teresa e as meninas tentavam se habituar à nova vida. Com um pequeno detalhe: nenhuma delas falava uma só palavra em português. Ao menos até surtirem efeito as aulas da então professora particular Alice Urbim, que, mais tarde, se tornaria uma conhecida jornalista e escritora.

“Depois de chorar por meses seguidos, nossa mãe, que sempre foi muito empreendedora, encontrou uma lojinha para alugar na rua Dr. Timóteo, onde funcionava um açougue”, conta Carina, que na época tinha cerca de dez anos de idade. “Ela viu que por aqui não existiam coisas como as empanadas e os sanduíches de miga, bastante tradicionais na Argentina.” Ao decidir abrir a sanduicheria, Teresa rumou ao país vizinho para buscar um padeiro e deu a ele a missão de ensinar a um profissional de Porto Alegre a autêntica receita do pão de miga. Naquele início, ela tinha uma sócia, mas em seguida assumiu sozinha as rédeas do negócio. Que logo se tornaria literalmente familiar.

Nasce um clássico

A empresa em que Julio trabalhava começou a enfrentar problemas financeiros. Havia a opção de retornar com a família à Argentina, desta vez para Buenos Aires, mesmo que sem garantia de emprego. Mas Teresa e o marido decidiram permanecer em Porto Alegre, para alívio das irmãs, agora adolescentes e plenamente adaptadas à cidade. “A gente queria muito ficar, e foi assim que nós quatro entramos juntos na Primavera”, lembra Silvina, dois anos mais velha que a irmã.

As meninas estudavam no Colégio Bom Conselho e passavam as tardes atendendo a clientela. O pai acordava às 5h para varrer a calçada e comprar os insumos do dia. Teresa comandava a cozinha pela manhã, onde tudo era produzido artesanalmente com ingredientes de qualidade. “Nossa mãe ia almoçar em casa e, à tarde, voltava madame para a Primavera”, brinca Carina. A divulgação era tão simples quanto eficiente: entregar uma prova a quem passasse pelo local, ou mesmo levar sanduíches sobressalentes para casa e entregar aos vizinhos. Aos poucos, o movimento cresceu. Instalada no coração do Moinhos de Vento, a sanduicheria era frequentada por gente como a socialite Livia Chaves Barcellos e até o ex-presidente Ernesto Geisel. Mas o boom aconteceria depois de um fato em especial.

No começo dos anos 1980, Teresa foi convidada pela jornalista Celia Ribeiro para participar do programa Guaíba Feminina, na extinta TV Guaíba, onde faria sua famosa torta fria. A atração tinha na bancada poderosas influenciadoras daquela época: Tânia Carvalho, Aninha Comas e Magda Beatriz, entre outras. “Depois disso, começou a dar tanto movimento que algumas vezes a gente precisava fechar as portas para dar conta”, lembra Silvina. O sucesso dos sanduíches e tortas frias refletia, também, nas tortas doces – outro ícone da Primavera.

Consolidada, a empresa abriu filiais. Entre elas, a da Praça Dom Feliciano, no Centro, em sociedade com a Sorveteria Nevada, e uma no Praia de Belas Shopping. Ao longo de cinco anos, a unidade no shopping exigiu tanto que Julio enfartou aos 50 anos. “Entregamos a loja para salvar a saúde de nosso pai”, conta Carina. Ao todo, a sanduicheria do Centro ficou cerca de 15 anos nas mãos da família, até a decisão de vendê-la para focar na loja original e criar uma linha industrial. Esta operação chegou a produzir até 3 mil sanduíches por dia, distribuídos para hospitais, postos de gasolina, cafeterias e lancherias, entre outros locais. Funcionou até 2015, quando um novo desafio se impôs.

Mudança de paradigma

O prédio que há 40 anos abrigava a Primavera tinha sido vendido. Seria preciso buscar um novo endereço. E o destino acabou sendo uma simpática esquina no bairro Boa Vista, próxima aos colégios Anchieta e Província de São Pedro. “Eu tinha muito medo de começar tudo de novo, depois de tanto tempo no mesmo local”, afirma Silvina. Àquela altura, Teresa e as filhas comandavam o negócio, já que Julio falecera cerca de uma década antes. Depois de quase um ano de preparação, estava tudo pronto. “Precisávamos fazer a mudança sem parar de trabalhar, pois isso aqui é a nossa fonte de renda.” E foi o que aconteceu: num sábado, a loja do Moinhos de Vento encerrou as atividades; na segunda-feira seguinte, a nova operação iniciou a todo vapor.

Desde os primeiros dias, a casa se fez cheia, mantendo o estilo acolhedor. “As senhorinhas do Moinhos de Vento chegaram a alugar uma Kombi para vir aqui conhecer. Começamos já dando muito certo”, sorri Carina. Dois anos depois, a mudança física levaria à reinvenção do negócio. De tanto os clientes pedirem pela opção de almoço, a sanduicheria virou, também, restaurante. A comida preparada por Teresa e Antônio, marido de Carina, inicialmente era disposta em um pequeno balcão. Mas em apenas um mês foi preciso comprar um buffet profissional.

Amigo da família, o chef Edvaldo Nunes, proprietário dos restaurantes Quintanilha, em Porto Alegre e Gramado, foi peça-chave nessa reestruturação. “Ele nos deu uma grande força. Vinha para cá aos sábados e passava o dia ajudando com dicas, nos ensinando tudo sobre buffet”, rememora Carina. Hoje, o almoço servido de segunda a sábado é um dos carros-chefes da Primavera, e se soma aos tradicionais sanduíches, às tortas frias e à indefectível torta Marta Rocha.

De geração em geração

Ainda que marque presença quase toda semana na loja, dona Teresa, 86 anos, já não trabalha mais. Na pandemia, a fundadora da Primavera ficou mais reclusa, por conta da idade. Desde então, a gestão é conduzida por suas filhas. Enquanto Carina responde pela parte administrativa e financeira, Silvina foca no atendimento. “Ainda assim, tomamos todas as decisões em conjunto. Aprendemos na marra a lidar com números”, salienta Carina. A pandemia, claro, foi um teste de resistência. “Fizemos take-away, vendemos marmitas, nos endividamos”, lembra Silvina. Mas a lealdade dos clientes foi fundamental para fazer do negócio um artigo raro em Porto Alegre: celebrar 50 anos em plena forma.

A Flor de Primavera Sanduicheria – como foi rebatizada anos atrás –, emprega 13 pessoas, sendo uma delas há 39 e outra há 40 anos, além de contar com o apoio de familiares como Antônio e Gabriel, um dos dois filhos de Carina. Silvina tem duas filhas. Ainda assim, as irmãs Yustas preferem não falar em sucessão. “Temos quatro herdeiros, mas ainda é cedo”, desconversa Carina. Por enquanto, seguem resistindo, se reinventando e servindo afeto e aconchego em forma de comida – porque, como dizem, “a Primavera é uma grande bagunça, mas é a nossa casa”.