“Eu quero algo físico. Vamos agir como animais.” A letra de Physical, clássico da cantora e atriz britânica Olivia Newton-John, é quase explícita. O clipe traz a bela estrela do filme Grease como uma legítima professora de ginástica, trajando tiara e polainas, enquanto flerta com bonitões marombados e coloca um bando de gordinhos de meia idade para suar. Lançado com escândalo em 1981, Physical se tornou o single mais vendido da década – e converteu-se em ícone de um período marcado pelo alvorecer do culto ao corpo.
Depois da fase transcendental dos hippies, a ordem vigente era seguir os passos de Jane Fonda, a embaixadora da aeróbica, ou do grandalhão Arnold Schwarzenegger e tornear os músculos na academia para ficar de bem com o espelho. O fitness despontava como sinônimo de ego, status e sensualidade. E o Brasil embarcou forte naquela onda. Uma estimativa feita por fabricantes de equipamentos esportivos, publicada no jornal O Globo, aponta que havia 2,5 mil academias nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro em 1980. O número saltou para 11 mil em 1984. Cerca de 40 anos depois, esse mercado vive um novo boom. Mas os motivos por trás da atual disparada não são exatamente os mesmos.
No mundo pós-covid, a busca por saúde, bem-estar e longevidade pesa mais do que a estética ou qualquer modismo. Uma pesquisa nacional da consultoria de mercado Toluna, feita em 2022, atesta essa nova orientação. Cerca de 42% dos entrevistados haviam começado a praticar atividades físicas durante a pandemia. Mesmo que fosse apenas uma caminhada na praça. Desse universo, 19% saíram de sedentários para minimamente ativos e 68% intensificaram os exercícios. É como se o período de reclusão e o temor causado pelo vírus tivessem ligado o alerta sobre a importância de mexer o corpo.
A última edição do Panorama Setorial Fitness Brasil, elaborado pela Fitness Brasil em parceria com a EY e a Armatore Market + Science, consolida os impactos desse movimento. O número de alunos inscritos em estabelecimentos de ginástica cresceu cerca de 50% entre 2019 e 2024 – de 10 milhões para 15 milhões. Na prática, a pandemia representou um momento de crise para muitos empreendimentos do setor, em razão das limitações impostas pelos protocolos de distanciamento. Mas o rebote do isolamento gerou a escalada da demanda. Por isso, a retomada tem sido vigorosa. “A pandemia desencadeou esse aumento da procura por atividade física. As pessoas começaram a entender que o exercício é a principal forma de combater os problemas de saúde”, confirma Alessandro Gamboa, presidente do Conselho Regional de Educação Física do Rio Grande do Sul (CREF/RS). A Organização Mundial de Saúde (OMS) corrobora esse ponto de vista.
De acordo com uma projeção da entidade, cada dólar investido em atividade física gera até três dólares de economia em gastos com saúde pública no futuro. “As novas gerações vêm pensando nisso, em não só esperar adoecer. A academia surge como uma medida preventiva”, reforça Fernando Sassen, CEO do Ipanema Sports e diretor da Associação Brasileira de Academias (ACAD Brasil). Ou seja, há uma atitude madura e consistente empurrando cada vez mais pessoas para dentro dos centros de treinamento. Daí o fato de o setor apresentar uma expansão linear no Brasil.
Entre 2014 e 2024, o país passou de pouco mais de 19 mil academias para 57 mil. É quase o triplo em uma década. O maior salto se deu nos últimos cinco anos – de 30 mil para o número atual. Já o faturamento anual do setor saiu de R$ 12 bilhões para R$ 17 bilhões – avanço de 44% em meia década. Todos os dados são do Panorama Setorial Fitness Brasil.
O Rio Grande do Sul acompanha esse cenário de alta. Existem cerca de 4 mil estabelecimentos dedicados ao treinamento físico no estado – 800 deles em Porto Alegre. Entre 2019 e 2024, a média foi de quase 400 novos negócios a cada ano, de acordo com os registros do CREF/RS. Um dos melhores exemplos dessa expansão é a PWR, que apostou no arrojo e na resiliência para crescer em meio ao momento mais desafiador do segmento.
Peito de aço
Em 2008, Jefferson Boll cursava Educação Física e trabalhava como garçom. Foi quando recebeu o convite do colega Edson Andrade para investir em uma academia em São Leopoldo. A PWR manteve-se com apenas essa unidade por 13 anos. Até os decretos de isolamento colocarem o negócio em xeque. A rigidez adotada pela prefeitura local impôs aos sócios a necessidade de uma alternativa. Em 2021, eles decidiram apostar alto. Mesmo em dificuldades, abriram uma filial na cidade vizinha de Portão, onde a legislação era mais flexível. “Demos um peitaço”, admite Boll. E não se arrependeram.
A nova operação conferiu fôlego para a PWR driblar o mau momento – e abriu caminho para mais expansões. A marca emplacou outras quatro unidades em sequência: Estância Velha, São Sebastião do Caí, Campo Bom e Capela de Sant’ana. A filial de Campo Bom, inaugurada em 2024, é o maior investimento até aqui – cerca de R$ 3 milhões. E já é um sucesso. São mais de 2 mil clientes em uma cidade de 60 mil moradores. Isso em apenas um ano de atividade. É quase a capacidade completa da estrutura, que tem margem para ser ampliada.
O projeto da PWR é exatamente demarcar território em cidades menores do Vale do Sinos, criando uma barreira natural à investida das grandes redes. Para isso, a marca faz um mapeamento do mercado e evita entrar onde já há muitos concorrentes fortes. Esse crescimento trouxe mudanças em termos de gestão. No início, o desafio da PWR era gerenciar a receita. A fórmula adotada foi considerar a academia como um terceiro acionista. “Repartíamos tudo em três fatias de 33%. Uma delas representava o reinvestimento no negócio”, revela Boll. Agora, com seis unidades, os sócios precisam se desdobrar entre as cidades para acompanhar de perto cada uma das operações. São mais de 7 mil alunos e 60 colaboradores, entre funcionários e estagiários.
O salto acelerado faz a PWR estudar seus próximos passos com parcimônia. Por ora, o foco é desacelerar o ritmo para consolidar a rede: “Não queremos crescer demais antes do tempo.” Multiplicar as operações sem perder a qualidade original é um desafio de todas as marcas que tomam o caminho do crescimento. Foi assim com a Engenharia do Corpo, também fundada no Rio Grande do Sul.

Crescendo seco
A primeira unidade da Engenharia do Corpo foi aberta em Caxias do Sul, em 2010, pelos irmãos Alexandre e Diego Zanella. “Começamos pequenos, com um modelo muito focado em eficiência operacional, estrutura acessível e um atendimento humano. De lá pra cá, crescemos sem perder nossa essência”, conta Alexandre. Hoje, a marca está entre as maiores redes do país, com mais de 100 unidades e 190 mil alunos em diversos estados.
O avanço se deu, sobretudo, por um robusto sistema de franquias. No modelo híbrido da Engenharia do Corpo, o franqueado realiza o aporte e pode optar por se unir ou não à gestão, que fica a cargo da franqueadora. Isso possibilita que pessoas sem conhecimento prévio invistam no setor, utilizando uma marca reconhecida. “Não vendemos uma unidade, vendemos um modelo testado, validado e acompanhado de perto”, destaca Zanella. A taxa de franquia tem valores a partir de R$ 100 mil. Já o aporte para a montagem da unidade ultrapassa R$ 1 milhão, incluindo aluguel do espaço e compra de equipamentos.
Tanto a Engenharia do Corpo quanto a PWR apostam no modelo low cost, que aplica mensalidades mais baratas para atender um grande número de alunos com operacional enxuto. Esse perfil nasce nos Estados Unidos, maior mercado de academias do mundo, e ganha destaque no Brasil por meio da Smart Fit. Fundada em 2009, em São Paulo, a marca possui mais de 1,7 mil unidades e está presente em 14 países da América Latina. É a terceira maior rede do mundo e a maior fora do mercado americano, com 4,7 milhões de alunos.
O plano da Smart Fit é abrir mais 350 unidades até o fim do ano – dois terços dessas operações serão no exterior, incluindo uma no Marrocos. Com a nova expansão, a rede pode chegar a 7 milhões de alunos. Cerca de 50% das academias foram inauguradas a partir de 2020, ratificando o aquecimento do setor. Outro fator que impulsionou essa expansão da Smart Fit foram os altos aportes. Em 2019, o grupo recebeu mais de R$ 500 milhões do fundo de private equity Patria. A Canada Pension Plan Investment Board (CPPIB) e o GIC, fundo soberano de Singapura, também detêm fatias da empresa – que realizou seu IPO em 2021. Já a Blue Fit, outra gigante do low cost no Brasil, teve 51% de suas ações compradas pelo Mubalada, que pertence ao fundo soberano de Abu Dhabi, em setembro de 2023. O aporte chegou a R$ 464 milhões.
3 x 1
Embora seja puxado pelas grandes redes, o setor também avança devido à proliferação dos centros de treinamento personalizados. São academias do tipo estúdio, de menor porte, que oferecem uma abordagem individualizada – mesclando treinamentos de força, Pilates, funcional e outras modalidades. É o caso do Áquila Estúdio, de Porto Alegre.
A operação é coordenada pelo educador físico Taillan Moojen, que adquiriu um estúdio de Pilates e funcional em 2018 e passou a implementar um novo modelo de gestão. O foco do Áquila Estúdio é o atendimento personalizado, em que cada professor acompanha, no máximo, três alunos ao mesmo tempo. “É praticamente o serviço de um personal, sem ficar preso ao horário do profissional e sem revezar aparelho na academia”, ressalta Moojen. Essa exclusividade, claro, tem o seu custo.
O ticket médio dos estúdios é três vezes o das low cost. No Áquila, a mensalidade do plano anual para duas vezes na semana custa R$ 300. E essa linha de corte não tem sido um impeditivo para a academia crescer. No embalo do pós-pandemia, o estúdio passou de uma para seis unidades – cinco na capital e uma em Canoas. E também estruturou o seu sistema de franquias, com valores a partir de R$ 282 mil.
A marca oferece todo o know-how de gestão, marketing e RH, incluindo a indicação de fornecedores. É uma saída para quem pretende pular etapas e economizar tempo e dinheiro. “Muitos profissionais pensam em empreender por serem bons tecnicamente. Mas o que vai determinar o sucesso do negócio é a sua competência como gestor”, aconselha Moojen.
A transição da sala de treinos para o posto de gestor é desafiadora. Além de dominar técnicas de gestão, o empreendedor deve estar atento ao controle financeiro. “É um dos pontos que levam uma academia a sucumbir. Por isso, o gestor deve aliar o investimento com uma postura de auteridade para gerenciar os recursos da forma correta”, indica o advogado Luciano Fernandes, sócio do escritório Fernandes Machado Business Law. Fernandes chama a atenção para a questão fiscal: “Quando o faturamento sobe, há uma mudança na alíquota que pode pesar no caixa da academia. Daí a importância de entender os indicadores e buscar uma assessoria para avaliar qual o melhor enquadramento tributário”.
Corpo e alma
A mudança de conceito dos consumidores em relação à utilidade das academias tem levado ao surgimento de operações que incluem a atividade física, mas não se limitam a isso. É o que faz a Soul8, clínica paulista criada pelo administrador Guilherme Lima. Egresso do setor financeiro, Lima passou por um burnout em 2022 e foi pesquisar o que havia de melhor em termos de treinamento físico e medicina do esporte. “Entendi minha saúde como um movimento de negócios”, define.
Nessa busca, Lima passou a arregimentar conteúdos e profissionais especializados em fisiologia, nutrição, farmacologia e medicina do sono. “Notei que o mercado não oferecia a abordagem integrada que eu buscava”, conta. A Soul8, fundada em 2023, foi a resposta a esse anseio. Localizado na Vila Olímpia, em São Paulo, o centro combina a academia a um robusto pacote de medicina integrativa, alicerçado por tecnologia de dados.
O cliente recebe um plano completo de treino, fármacos, alimentação e saúde do sono, com relatórios periódicos de biomarcadores e acompanhamento individualizado com os especialistas. “Contar com um treinador, um nutricionista e um médico é diferente de trabalhar com os três em sinergia, a serviço da sua saúde”, defende o empresário. Ou seja, é uma consultoria de saúde que tem o esporte como base.
No modelo da Soul8, aliás, o espaço físico da academia é um suporte, mas não o principal ponto. Tanto que a clínica atende a clientes de outros estados e do exterior. “Fazemos uma entrevista muito honesta com cada novo membro. E deixamos claro que não somos a melhor solução para aqueles que desejam apenas acessar a academia”, adianta Lima. O público é predominantemente 40+, com foco em longevidade. Mas também há atletas de alto nível que buscam melhoria de desempenho.
O pacote completo, incluindo a academia, custa R$ 5,8 mil por mês. Mas há opções de acompanhamento por R$ 3 mil. O plano da Soul8 não é expandir fisicamente, mas crescer por meio da tecnologia. A empresa está elaborando uma combinação de wearables (dispositivos de vestuário) e aplicativos para ampliar a capilaridade do serviço.
Fôlego longo
A integração de serviços é outra tônica do setor. Isso é notado, por exemplo, no nicho de academias de luxo. São centros que agregam serviços de spa ao treinamento, incluindo sauna, banheira, toalhas aromatizadas e whey protein gratuito. A Six Sport, com sedes em São Paulo e Brasília (DF), oferece massagens, taças de vinho e apresentações com DJs. Já a Les Cinq, também de São Paulo, conta com piscinas salinizadas. A Bodytech, uma das maiores redes premium do país, inclui sala de maquiagem em algumas de suas unidades. A mensalidade de academias desse tipo fica em torno de R$ 3 mil.
Ainda assim, a combinação de serviços pode ir além do mero luxo e incluir um centro de convivência. É o que fez o Ipanema Sports, um dos mais tradicionais da Zona Sul de Porto Alegre. Iniciada como uma quadra de padel em 1995, a academia mudou seu perfil ao longo dos anos e hoje se posiciona com um family club, com diversas atividades para a família. O conceito é definido por Fernando Sassen como social wellness – a junção da atividade física ao convívio social. “O nosso perfil não é do cliente que apenas gosta de treinar. Ele busca um estilo com maior qualidade de vida, em que possa agregar a família toda na atividade”, explica o CEO do Ipanema Sports. Aqui, vale destacar o alinhamento da academia à sua praça, já que a Zona Sul da capital tem um lifestyle próprio, em razão da descompressão proporcionada pelo maior contato com a natureza.
A diversidade de frentes e possibilidades do setor indica que o aquecimento do mercado ainda está longe de terminar. Atualmente, apenas 5% da população brasileira está matriculada em academias, segundo levantamento do Fitness Brasil. Além disso, cerca de 50% dos brasileiros são sedentários. “Não há risco de saturação, pois as academias já estão lotadas e ainda estamos longe de alcançar o ideal de praticantes. É um mercado com muitas oportunidades, tanto para profissionais quanto para empreendedores”, finaliza Alessandro Gamboa, do CREF/RS.